quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Operários do Natal

Ela chegou com uma nota de cinco euros e escolheu três frascos de gel de banho para levar.
Timidamente, a medo, pediu-me para embrulhar.
Eu durante segundos pensei nas grandes superfícies com a sua banca de embrulho onde cada um faz e se serve, pensei no tempo e papel que se gasta e é de borla, para embrulhar em papel de prenda três frascos de gel de banho que custam 1,65 cada.
Mas depois regressei à minha mercearia e aos olhos dela, que diziam que poder gastar 5 euros em prendas para fazer feliz alguém é bom, é mais do que suficiente.
E fui buscar o papel e fiz-lhe os três embrulhos. Ela é pequena e é generosa e por isso eu também tenho que ser generosa,  no meu tempo e no meu papel de embrulho, juntas afinal, nesta tarefa natalícia de dar mais do que receber.



https://youtu.be/OOzHWw_ezDw

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Evasões 360º

Fomos à pressa à papelaria do shopping comprar o jornal porque estávamos atrasados para a sessão de cinema.
Já sentados e com um grande balde de pipocas, enquanto dava a publicidade, abri a revista Evasões 360 º (que vem como suplemento ao DN nos domingos) à procura da reportagem sobre Marvão.
Só tive tempo de ver as fotos e fiquei triste, na reportagem sobre Marvão não havia fotos da Mercearia mais bonita, apenas a nossa morada na nota lateral final.
- Ohhh bolas -  e confesso,  senti-me desiludida durante todo o filme.
Quando o cinema acabou, já no carro e de regresso a casa, tenho então tempo para abrir de novo a revista e ler  texto.
No final disse ao Nuno : Ahhhh, tinha ficado tão triste por não ver na reportagem a foto da Mercearia mas afinal fizeram muito melhor do que isso, fizeram um texto tão bonito

A visita tinha sido curta há duas semanas atrás. Um jornalista e um fotógrafo guiados pelo Filipe da Terrius fizeram ronda a alguns produtores/empreendedores/empresários cá da terra. Contei à pressa a minha história, mostrei a Mercearia e tinha sido isso. Falei de como gosto de escrever e partilhar pequenas histórias sobre a terra e a vida do dia a dia.
Quando as visitas são curtas uma pessoa fica sempre com medo de não conseguir passar bem a mensagem, até porque mercearias e merceeiras há muitas... mas vai-se a ver, o texto do João Ferreira Oliveira captou mesmo o que eu queria transmitir.

Apesar de eu gostar muito de escrever e contar histórias, tinha este blog abandonado há muito tempo. Porque online, as coisas mudam muito depressa e estão cada vez mais imediatas. Em vez de escrever textos longos passei-os a curtos no Facebook, e quando o Facebook me começou a enjoar passei para as fotos do Instagram. A necessidade de contar histórias é a mesma, os meios é que se vão alterando. No entanto, nada muda a força de um texto com princípio meio e fim, tal como acontece num livro ou numa revista, é ou não? Dá é mais trabalho :)

O jornalista da Evasões veio ler este blog parado no tempo, recuperou um texto de 2015 quando o António Melara reinaugurou o espaço do avó como museu, para introduzir a visita deles ao Lagar dos Galegos. Ficou mesmo bonito. Deixou-me tão feliz. É que no mundo do imediato é mesmo um privilégio saber que alguém perdeu tempo a ler um texto meu com três anos e a recupera-lo desta forma.

Fez-me sentir que fixar palavras, passeios, impressões, vale tanto a pena.
Fez-me sentir que nesta pequena mercearia alentejana, onde me sento ao computador, consigo chegar ao mundo.
Obrigada!


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Canela

Entra um pequeno grupo de turistas japoneses na loja, todos idosos. Só a guia que os acompanhava falava inglês.
Por razões que desconheço pedem canela.
Trago a canela em pó e em pau e todos exclamam em uníssono: Ohhhh
Cada um escolhe um ou dois pacotinhos e começam a estender-me as notas para pagar. Todos tinham notas de 20 euros para pagar pacotinhos de canela que custam 0,55 e 0,75 cêntimos respectivamente.
Eu aborrecida com tanto troco difícil lá os vou despachando.
No final saiem e quando eu pego nas caixas da canela para as levar de volta à prateleira, reparo que no chão ficou uma capinha plástica.
Porque era plástica reparo facilmente que estava cheia de notas de 20 euros e vários cartões de crédito.
Saio a correr para a rua e ainda os encontro parados no largo.
Devolvo a capinha plástica e ouço de novo em uníssono: Ohhhhh.
Vêem atrás de mim fazendo vênias subtis. Regressam à loja e cada um deles escolhe uma garrafinha de azeite da cooperativa de Portalegre para levar.
Viram, fregueses? Ser honesta sempre compensa

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Agora pense...

O freguês gosta de estar numa fila e ser empurrado? Gosta de dedos em riste à frente dos olhos? Gosta de ser apalpado num autocarro?
O freguês gostaria de ser amassado no meio de uma multidão? Que lhe sintam a rijeza das carnes e a frescura da pele?
Não, pois não?
É que o pão, a fruta, o queijo, os bolos, os rebuçados de ovo, quiça até um sabonete...também não...
 

#nãomexasenãoquerlevar
#estamoscaparaesclarecer
#denada

sábado, 8 de abril de 2017

O arroz das mães

Dona Isabel Graça escolhendo arroz:
- Oh Catarina, a minha mãe fazia um arroz tão bom e sequinho, eu nunca consegui acertar com o arroz que ela usava
- Acho que isso não tem a ver com o arroz que se usa Dona Isabel, isso é uma lembrança boa de mãe
- (ela sorrindo) É capaz de ter razão....