terça-feira, 22 de março de 2016

Combater os dias maus com boas garrafas de vinho

Vinha comprar um saca rolhas. 
- Não tenho para venda, lamento. - disse em inglês.
Perguntei-lhe se estava instalado num alojamento da vila. 
Disse que sim. 
Emprestei-lhe um saca rolhas e disse:
-  Depois de abrir venha cá devolver-me.
Voltou em 10 minutos, agradecido.
Olhou para os vinhos que tenho na Mercearia. Escolheu um Tapada de Chaves, Disse -lhe que era uma boa escolha e se precisava do saca-rolhas novamente.
Disse que não, que iria leva-lo de volta para a Bélgica, de onde é natural.
- É belga? Caramba, not a good day.
- A minha família está a salvo, disse-me com lágrimas nos olhos. É o importante.
- Ainda bem...
- Mas eu sou funcionário do aeroporto de Bruxelas. Estou de cinco e cinco minutos a consultar o email. Por causa dos meus colegas....
- Tenho muita pena. Tenho mesmo muita pena. Espero que corra tudo pelo melhor.
-.Obrigada pela amabilidade de me ter emprestado o saca rolhas.
- De nada, Hoje precisa de um bom vinho. Tudo de bom.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

WANT COMMUNITY? BUILD WALKABILITY

"Are the streets narrow enough that drivers slow down and folks feel comfortable on foot?"
Leio partes deste texto e lembro-me de Marvão. Uma vila medieval, de ruas estreitas, calçada e poucos locais de estacionamento. Uma vila onde se vai de uma ponta à outra em 5 minutos. Mas no entanto vejo cada vez mais carros a circular com duas pessoas dentro, parando em frente aos monumentos a tirar fotografias: de dentro dos carros!
Um absurdo.
Marvão de carro deveria ser apenas para os que cá moram, os que cá dormem (hotelaria), os que cá trabalham e os que cá usam os serviços (habitantes concelhios)
Os visitantes, ( e tão bem vindos que eles são!!!!), se não têm mobilidade reduzida, podem e devem deixar os carros fora de muralhas, e desfrutar Marvão a pé, porque é mil vezes mais bonito e enriquecedor.http://www.strongtowns.org/journal/2016/2/23/want-community-build-walkability

domingo, 24 de janeiro de 2016

Em dia de aniversário da Restauração do Concelho de Marvão. Em dia de eleições. Ajustes directos? Atenção que Marvão é de todos. E haverá sempre quem repare

"O Sr. Vereador, Prof. Carlos Castelinho referiu que estamos a um mês do fim da
concessão do Castelo de Marvão e perguntou o que vai ser feito? Se vai ser aberto
concurso ou não, uma vez que já falta muito pouco tempo. -----------------------------------
O Sr. Presidente respondeu que está a tratar deste assunto, no sentido de avaliar
se se mantém ou se faz um ajuste direto"


Ata nº 01/2016 - ata-n_01_2016-04_01_2016.pdf

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A inércia, essa grande velhaca

Aqui na Mercearia há muita gente que me pergunta como se vive em Marvão. Como é a vivência do dia a dia. Perguntam-me das lojas, da escola, da farmácia.
É verdade que é estranho pensar numa vila de apenas 100 habitantes, admito que sim.
Hoje a conversa, no entanto, desceu o monte para Santo António das Areias. Falámos sobre a fábrica que fechou, sobre as lojas que vendem cada vez menos, sobre os jovens que abalam e não voltam porque não há emprego.
E falámos da escola. Da escola onde estudou o meu marido, onde hoje eu tenho os meus filhos mais velhos.
De ano para ano a escola de Santo António das Areias tem cada vez menos alunos. E quando não há matéria prima, custa também  encontrar argumentos para tentar pedir que se abram mais turmas, ou que haja verba para materiais ou equipamentos.
Não é que os poucos que lá estão mereçam menos do que quaisquer outros, obviamente, mas a verdade é que a terra definha, morrem os velhos e nascem muito poucos, e o futuro qual é? Pouco risonho, com toda a certeza.
Do outro lado do monte, a Portagem acena. Com um edifício mais moderno e com espaço para crescer, com a direcção em permanência, com as turmas do 2º ciclo que já para lá passaram para poupar recursos (já que as turmas tinham menos de 10 alunos...). E depois o que virá?
Segue tudo para Castelo de Vide? E daí para Portalegre? O futuro é já aí...

Lembro-me de umas reuniões a que eu assistia já lá vão quase dez anos, enquanto representante da Associação de Pais. O Conselho Escolar (acho que era este o nome) reunia representantes das Escolas, da Câmara Municipal e de várias associações ligadas ao mundo educativo.
Falava-se, há dez anos atrás, que o Agrupamento era inevitável. E foi.
Falava-se, há dez anos atrás, que se deviam aproveitar os fundos comunitários para dotar a Escola da Portagem dos equipamentos em falta para estar preparada para eventualmente receber os alunos de Santo António.
Não se fez obra, não se fechou a escola, ainda.....mas até quando?
Falava um Dr Paulo, do Gavião, da Direcção Escolar de Portalegre, que as mudanças eram inevitáveis, que o Ministério se regia por números, e que mais valia aceitar e tirar o melhor proveito possível das mudanças.
Mas falava para uma parede, porque o então (e agora) Presidente nada fazia, nada faz, nada fará.
Culpando este mundo e outro dos problemas que são iguais aqui como no Baixo Alentejo, Beira Alta ou Trás os Montes. Falava mas aqui não se fazia, não se faz, não se fará. Porque é mais fácil culpar quando vem o decreto, quando vem o fecho definitivo, que é culpa dos senhores de Lisboa, nunca dele.
De há dez anos para cá pouco mudou, o pouco que mudou foi imposição de fora...

Hoje inaugurou-se o Centro Escolar de Sousel. Um edifício bonito, moderno, colorido.
Lá os problemas serão semelhantes, Há cada vez menos alunos, com certeza foram fechando as pequenas escolas das freguesias e transitaram os recursos para o novo Centro.
Não é bom, é um facto, mas tirou-se partido da situação para fazer melhor pelas crianças, para lhes dar condições para crescerem e serem educadas da melhor forma possível.
Pois...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

As chavetas de Arronches



Em quatro anos de Mercearia nunca um objecto tinha gerado tanta conversa e tanto comentário.
Eu entendo, de facto não é óbvio, é preciso conhecer a realidade do mundo rural para perceber.
Quando um cliente olhava e mexia, logo a seguir perguntava:
- Para que serve?
E se eu não respondia imediatamente levantavam-se várias hipóteses. Aqui ficam algumas:

- É para marca o leite creme?
- É para segurar as portas?
- É para servir de “rolha” de garrafa?
- É para marcar massas?

Mas não, nada disso. O nome varia consoante a terra: chavetas ou cáguedas são duas das designações (ambas do Alto Alentejo) . Mas afinal o que são?

Pois bem: Arte pastoril. Arte do pastor, madeira esculpida com a navalha…para prender os chocalhos dos animais no campo (cabras, ovelhas ou vacas).
Os floreados são a marca do autor ou ainda a forma de diferenciar os animais.

Encontrei-as este Verão na Feira de Artesanato de Arronches. O artesão, um senhor bem velhote, fazia-as para ocupar o tempo. Lindas, perfeitas, de uma harmonia arabesca mas no fundo, tão simples.
Comprei vários carretos por atacado. Sabia que não ia encontrar este senhor muitas mais vezes. Percebi pela sua idade e disposição, que não era uma arte com continuidade, e talvez por isso mesmo, para mim, ainda mais preciosa.

Apesar da estranheza, a verdade é que venderam bem. Não são realmente úteis para nada (quer dizer, eu também não experimentei marcar o leite creme com elas, confesso). Mas fazem parte de um universo em extinção, de práticas ultrapassadas.

Porque na Mercearia já só restava um exemplar, na semana passada o Nuno disse-me: Vou falar com o meu colega de Arronches, ele pode conhecer o tal velhote das chavetas.
E bem dito bem feito, sendo o mundo uma aldeia, a verdade é que conhecia mesmo. Trouxe-me esta manhã dois carretos. As últimas doze unidades.
O senhor, pela idade, já não consegue ver bem e por isso tornou-se incapaz de as “esculpir”.
Peças simples, curiosas, até enigmáticas. Mas que afinal, são peças de sempre.
Ainda mais preciosas, ainda mais especiais, porque são mesmo as últimas.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

O ponteiro dos minutos

Ralharam comigo porque tinha a porta fechada. Tinha ido lá a cima à Estalagem trocar a roupa nas máquinas e demorei-me mais da conta, afinal eles tinham vindo desde o Vale de Ródão até Marvão, só para vir à Mercearia.
Queriam uma pilha para o relógio da mesa de cabeceira. 
Só posso vender as quatro, disse eu, que o pacote é assim.
- Oh homem, tira lá a navalha que mesmo agora experimentamos.
O relógio era antigo, não tinha ponteiro dos segundos, pelo que mudada a pilha, nada aconteceu.
- Agora temos que esperar, que passem os minutos, e assim se comprova, que já está bom a dar as horas.
Esperámos os minutos que o relógio quis dar, perguntaram-me se o meu marido já tinha chegado a sargento, e pelo meu cunhado de quem são muito amigos.
Esperámos e conversámos porque o tempo é nosso, o tempo somos nós que o fazemos e aqui temos tempo.
E entretanto o relógio avançou.
Adeus e obrigada, até outro dia.