quarta-feira, 20 de outubro de 2021

A minha primeira Assembleia Municipal ou como o feminismo só faz sentido na primeira pessoa

Cheguei mesmo em cima da hora. Creio mesmo que fui vergonhosamente a ultima a entrar. A bonita sala da antiga fronteira de Marvão estava cheia e preparada para a tomada de posse da Câmara e da Assembleia Municipal 2021/2025.

Não serve, nunca poderá servir de desculpa, mas sou mãe de uma família numerosa, faço gestão de uma micro empresa já com várias valências e sou empregadora. Apesar das muitas horas que trabalho todos os dias da semana assumi no dia 18/10 um compromisso que só vou falhar se algum dia me faltar (ou aos meus dependentes), a saúde. Não entendo outra forma de estar no serviço cívico na medida em que a minha terra é um dos meus amores mais fortes, presentes e permanentes. 

Tenho orgulho no lado da sala em que me sentei. Foi o partido mais votado e obteve maioria, mas principalmente porque  sinto que  todas aquelas pessoas a quem chamo colegas de bancada partilham do mesmo compromisso e o mesmo empenho. A outra bancada teve uma baixa mesmo antes da Assembleia ser marcada. O seu cabeça de lista abdicou. Desconheço as razões, tal como desconheço a razão para a abdicação de outro cabeça de lista do mesmo partido a uma das Juntas de Freguesia. Sintomático? Não sei, cedo para avaliar.

Tudo correu de forma serena: os juramentos, assinaturas, votações para as numerosas comissões a que membros da Assembleia pertencem. Fiquei na Comissão de Toponímia que é um tema que muito me agrada e para o qual me esforçarei para dar um contributo válido.

A minha bancada tinha o trabalho preparado e bem organizado e todos tivemos voz ao longo da sessão, propondo colegas para a constituição das comissões. Fiquei sensibilizada e agradada com este pormenor, ter tido voz desde o primeiro momento e por isso mesmo só posso desejar que assim se mantenha.

Foi mesmo no final que o o meu coração acelerou um pouco mais e o sobrolho se franziu acima da máscara. Nem o discurso habitualmente pouco espontâneo do reeleito Presidente da Câmara, que nos acostumou desde sempre aos mesmos chavões e às mesmas promessas me causou qualquer tipo de reação.

Dizia eu que foi mesmo no final que o líder da bancada da oposição pediu a palavra e se dirigiu ao palanque, com a lição bem preparada para o " ataque político" que iria protagonizar. Digo de ressalva que os membros da bancada opositora são quase na sua totalidade, pessoas por quem tenho genuína simpatia e admiração e isso inclui sem hesitações o Fernando Bonito Dias. Foi com esse tom simpático que começou, dando os parabéns a todos e desejando bom trabalho. Comecei a abrir os olhos quando o tema da intervenção passou para as quotas femininas nos cargos políticos ao nível concelhio e central e como tal assunto tinha sido tratado em particular nas recentes tomadas de posse das Juntas de Freguesias  locais. 

Confesso que nada sabia sobre o assunto e ainda hoje pouco mais sei, contudo, porque o próprio Fernando o referiu,  a questão nunca  esteve ferida de legalidade mas constituiu uma flagrante falta de respeito pelas mulheres das listas a sufrágio, e em particular, as mulheres eleitas para as Juntas de Freguesia pelo PSD.

Posso não ter muita experiência política, mas tenho inteligência suficiente para perceber que eu não estou do lado dos bons porque do outro lado estão os maus, e que as manobras políticas são algo sempre presente de todos os lados da barricada e para as quais vou ter que me habituar. No entanto, no que ao PS local diz respeito, estamos confortáveis no tema do feminismo na medida em que o Partido Socialista em Marvão foi o primeiro a eleger uma vereadora (a Dona Elvira, que todos referem ter sido uma acérrima defensora da vila), já teve uma candidata a Presidente de Câmara (Madalena Tavares) e nas autárquicas do mês passado, em seis eleições teve duas mulheres cabeça de lista que venceram a eleição a que se candidataram. Na Assembleia, somos cinco mulheres, todas com carreira profissional, três delas mães.

No PSD de Marvão, tal não acontece, nem agora nem no passado.

Mas voltemos ao que interessa, ao discurso do Fernando, que aliás foi a única voz da sua bancada do princípio ao fim, sobre as quotas e os direitos das mulheres. Apesar da retidão e segurança com que preparou o discurso e o tema, da referência pessoal à filha ou a nomeação das lesadas na questão particular que abordou, o discurso teve uma falha fatal que me motivou a tal indignação.

Parece-me primordial  que quem defende uma causa que versa sobre a discriminação a faça em causa própria. Ou seja, só pode entender em plenitude, na primeira pessoa, o que é a discriminação de género/racial/religiosa etc etc etc quem a viveu ou pelo menos a viveu em paridade. 

Todos podemos (e devemos) ser humanamente sensíveis para causas de discriminação, mas daí a conseguir calçar os sapatos do outro, sabermos o que é a sua dor e o seu percurso  vai uma longa distância. E nessa distância, está tudo.

Eu posso (e devo) advogar sobre os direitos do meu filho deficiente porque ele não tem voz própria. Mas no dia em que ele conseguir defender-se, eu tenho obrigação de lhe dar esse direito. Tenho obrigação de me calar.

Ora vejamos, então o discurso era no sentido de denunciar uma situação abusiva aos direitos das mulheres, no entanto, o que aconteceu, foi mais uma vez usar-se o tema dos direitos das mulheres como arma de arremesso político. O aproveitamento discriminatório não se mantém?

Eu posso e devo como líder de bancada, expor a imoralidade de uma jogada política  da fação oposta, prevenindo que tal se volte a repetir. Mas se o tema são os direitos das mulheres, então haja coragem e humildade para dar voz a uma mulher. Ter poder, é, saber no momento certo, abdicar dele. Ter coragem de ficar sentado como espectador e deixar uma mulher fazer esse discurso.  

Porque a conquista e o verdadeiro avanço está aí.   

segunda-feira, 29 de março de 2021

Ser presente

Quando estudei em Lisboa, vivi numa rua comprida e estreita com prédios relativamente altos de um lado e do outro.

Viviam ali, naquela rua, centenas de pessoas e eu, em quatro anos, nunca conheci nenhuma.

Lembro-me de nas noites quentes, ficar curiosa, na janela de marquise, a espreitar para os apartamentos e para a vida de cada um, e no entanto, nunca cheguei a dizer mais do que bom dia a ninguém.

Há uns anos atrás, quando a minha actual vizinha perdeu a mãe e ficou sozinha, confessou-me uma vez na loja que o barulho dos meus filhos e a luz da minha casa lhe fazia companhia. Todas as noites quando venho fechar o postigo da minha janela penso nela e se estará bem.  Com pequenas coisas somos presentes na vida uns dos outros. E é assim que deve ser

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Cerejas em Maio

Há vários anos que não chovia tanto em semana de Sra de Fátima, diz-me o Sr. Dionisio quando vem buscar o pão.
A meteoalentejo regista que este ano está já bem chovido em Marvão, a barragem está a largar água pelo ladrão e o verde está bem garrido por esses campos fora.
A água de Abril estragou a pouco cereja que temos na Serra de São Mamede, o Sr Reia já me tinha confirmado no fim de semana passado..
- A cereja tardia parecia bonita mas ou os pássaros a comem ou esta água a "arracha"
Mas Maio não é Maio sem cereja. Sem o doce e a cor, sem promessa de Verão.
Precisamos todos agarrar-nos à esperança de coisas boas, de reconciliação com a natureza em que o ciclo da vida não interrompe por quarentenas ou vírus.
Podia vir do Vale del Jerte, aqui tão perto. Um vale tão bonito e conhecido da província de Cáceres, promessa de cereja carnuda e gorda. Mas com a fronteira fechada, também não creio.
Quero ver se chega ao final da semana, mesmo se vier cara não faz mal, os fregueses pedem-na. A cereja não é só fruta, já disse, é a alegria do calor, é esperança.
A ver se as Beiras nos salvam...

segunda-feira, 2 de março de 2020

Sotaque

Atende-me quase todas as quartas de manhã, no Mercado Municipal, no espaço de venda da Queijaria Fortunato (Tolosa - Nisa)
Tem sempre uma bata impecavelmente branca a combinar com a cor dos cabelos, um sorriso simpático e muito saber fazer.
Depois de me aviar a encomenda, para eu pagar, passa-me a fatura pedindo-me o número de contribuinte.
A Dona Graça (nome tão da terra) não sabe o quanto eu gosto de a ouvir dizer o zero zero do número de contribuinte porque o faz com o sotaque de Nisa.
O zero passa a "zaero" de uma forma tão bonita, como já não se vai ouvindo.
Eu reparo sempre, e gosto muito.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

As filhoses das vizinhas

- Oh Catarina, há banha?
- Não, lamento, esgotou, só para a semana
A pergunta repetiu-se várias vezes durante dois dias seguidos até que eu, estranhando, perguntei.
: Mas afinal para que é tanta banha, por Deus? Esta semana tudo quer banha?
Descobri depois, a razão de tanto pedido
É que as filhoses do Natal levam banha.
É costume as vizinhas oferecerem as filhoses umas às outras, e nisto de receitas e ofertas ninguém quer ficar atrás.
Umas são melhores que as outras porque têm ingredientes especiais ou um toque diferente de estender a massa. A disputa é amigável e faz-se assim o Natal na comunidade, na tradição herdada de mães e avós e na alegria dos pequenos gestos.
E eu prometo que para a semana a encomenda será reforçada, ainda a tempo do Natal.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Menos de 100

Se há uma pergunta à qual respondo invariavelmente todos os dias, seja a clientes da loja ou aos hóspedes da Estalagem, é quantos habitantes tem a vila.
Numa terra em que morrem muitos mais do que aqueles que nascem, respondo sempre da mesma forma: somos 100 habitantes.
Apesar de ser um número baixo e ser relativamente fácil percorrer rua a rua, casa a casa até atingir o número exacto, a verdade é que um número redondo como 100 dá conforto, é redondinho.
O César era um desses 100 e não havia ninguém que não o conhecesse e considerasse. Perdeu a mobilidade após um acidente de viação muito grave há várias décadas atrás. Vivia em cadeira de rodas, aos cuidados da mãe, numa casa do Terreiro.
Apesar das dificuldades, e foram tantas ao longo dos anos, com problemas de saúde constantes e a dificuldade natural de viver numa terra que não foi feita para pessoas com pouca mobilidade, a verdade é que ao César sempre se viu um sorriso na cara, sempre teve uma palavra amiga para toda a gente, sempre foi um embaixador apaixonado da sua terra.
O César gostava de viver, era grato à vida, mantinha a esperança e valorizava as pequenas coisas. Que lição imensa.
Desde ontem somos menos de 100 porque perdemos mais um.
Aliás, somos muito menos de 100 porque perdemos um dos grandes.