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terça-feira, 16 de abril de 2019

As flores de plástico

Conheço-o da rua a passear, ajudado pela bengala. É utente da SCMM e por vezes sobe a Rua das Portas da Vila para vir aqui à mercearia, normalmente para comprar uma garrafa de vinho tinto para oferecer a um familiar que o visita regularmente.
Entrou logo cedo e disse rapidamente:
- Tem cá flores de plástico?
Eu chateada digo:
- Bom dia
Diz novamente:
- Tem cá flores de plástico?
E eu insisto:
- Bom dia
E ele volta à carga:
- Não tem? Flores de plástico?
Desisto desarmada e faço cara feia
Ele aproxima-se do balcão e diz-me:
- Desculpe menina, mas eu ouço cada vez menos
(merceeira engole em seco, afinal não era má educação ou má vontade, é só surdez)
- Precisava de um ramos de flores de plástico, quero ir visitar a minha mulher ao cemitério e não tenho transporte para ir a Castelo de Vide tratar disso, os chineses sei que têm, mas resolvi entrar para lhe perguntar.
- Lamento imenso mas não, só tenho um ramo de flores secas...Ai, espere lá...tenho lá em cima um pequeno, vou buscar.
Trago um ramo bem bonito que comprei uma vez na Loja do Gato Preto e nunca cheguei a dar uso.
- Oh que pena, são tão bonitas, mas são pequenas. A campa da minha senhora é larga e tem uma jarra muito grande, iam cair lá para dentro, não dá. Obrigada por ter ido lá acima e tudo. Eu vou aqui ao taxi a ver se resolvo uma ida a Castelo de Vide. Obrigada na mesma.
- Ora essa. Tenha um bom dia
Ele sai devagar e não me responde novamente ao bom dia. Mas desta vez não faz mal, não me importo, não levo a mal. Não temos que levar a mal todas as falhas dos outros. Ficamos mais leves quando perdoamos as pequenas falhas, E se procurarmos bem, cá dentro de nós, há sempre razões maiores que nos ajudam a aceitar , e a entender.

domingo, 14 de abril de 2019

Marvão já não é para os que cá estão



Assisto nas notícias às reportagens sobre Lisboa e Porto em que falam da especulação imobiliária, que a classe média já não consegue viver no centro da capital e que o Alojamento Local mudou a face das grandes cidades. Ouço as notícias como algo de distante e que não nos diz respeito, como se de outro país se tratasse e as diferenças entre o litoral e o interior não deixassem cá chegar o "flagelo".
Mas não é bem assim.
Viver num centro histórico de uma vila do interior não é para todos. Faltam serviços, não existem casas modernas nem as comodidades contemporâneas. Não existem garagens ou elevadores, não há aquecimento central nem internet de alta velocidade. Mas quem escolhe viver aqui, pesa na balança a felicidade que trazem as vistas largas, a segurança,  tranquilidade e os bons dias dados aos vizinhos.
A autarquia faz a sua parte, promovendo o arrendamento dos imóveis municipais com rendas baixas, mas não controla bem as regras dos regulamentos que impõe, não simplifica nem promove  a reabilitação dos espaços,  nem dá valor a preocupações como o ordenamento do trânsito. Deixa andar...
Mas a sensação é que de facto, também aqui, Marvão já não é para os que cá estão. Somos cada vez menos. Perdem-se vizinhos e não nascem crianças...o turismo e o grande poder de compra absorvem as casas que estão à venda.
Colocar à venda uma casa por um preço especulado, afasta o português de classe média que se quer fixar. São as regras do mercado.
E depois vem o turista que quer conhecer a padaria tradicional, que pergunta se a escola ainda tem crianças ou que precisa comprar uma caixa de aspirinas e não há onde...já fechou...
É bom ter as fachadas limpas e pintadinhas de branco...claro que é, mas também importa promover a vida dentro dessas casas...
Transformam-se o sítios em museus despidos, desinteressantes, sem ninguém a circular nas ruas passadas as sete da tarde.
Uma boa experiência turística passa por sentir a vida das comunidades...ora se a comunidade já não existe, se os jovens que aqui nasceram tiveram que sair por não poderem cá comprar casa ou trabalhar, então é tudo falso, sem conteúdo, vazio.
Equilíbrio é a palavra chave. E se eu valorizo muito esse sentimento de pertença, se depende de mim resistir, fazer a minha parte no que toca a manter tradições, participar e prestar um serviço aos demais, ao mesmo tempo também gostaria de sentir que pertenço a uma comunidade onde há esperança e futuro. Hoje não é assim...veremos amanhã,  aliás...veremos o que nos reserva o amanhã.


sábado, 8 de abril de 2017

O arroz das mães

Dona Isabel Graça escolhendo arroz:
- Oh Catarina, a minha mãe fazia um arroz tão bom e sequinho, eu nunca consegui acertar com o arroz que ela usava
- Acho que isso não tem a ver com o arroz que se usa Dona Isabel, isso é uma lembrança boa de mãe
- (ela sorrindo) É capaz de ter razão....

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A inércia, essa grande velhaca

Aqui na Mercearia há muita gente que me pergunta como se vive em Marvão. Como é a vivência do dia a dia. Perguntam-me das lojas, da escola, da farmácia.
É verdade que é estranho pensar numa vila de apenas 100 habitantes, admito que sim.
Hoje a conversa, no entanto, desceu o monte para Santo António das Areias. Falámos sobre a fábrica que fechou, sobre as lojas que vendem cada vez menos, sobre os jovens que abalam e não voltam porque não há emprego.
E falámos da escola. Da escola onde estudou o meu marido, onde hoje eu tenho os meus filhos mais velhos.
De ano para ano a escola de Santo António das Areias tem cada vez menos alunos. E quando não há matéria prima, custa também  encontrar argumentos para tentar pedir que se abram mais turmas, ou que haja verba para materiais ou equipamentos.
Não é que os poucos que lá estão mereçam menos do que quaisquer outros, obviamente, mas a verdade é que a terra definha, morrem os velhos e nascem muito poucos, e o futuro qual é? Pouco risonho, com toda a certeza.
Do outro lado do monte, a Portagem acena. Com um edifício mais moderno e com espaço para crescer, com a direcção em permanência, com as turmas do 2º ciclo que já para lá passaram para poupar recursos (já que as turmas tinham menos de 10 alunos...). E depois o que virá?
Segue tudo para Castelo de Vide? E daí para Portalegre? O futuro é já aí...

Lembro-me de umas reuniões a que eu assistia já lá vão quase dez anos, enquanto representante da Associação de Pais. O Conselho Escolar (acho que era este o nome) reunia representantes das Escolas, da Câmara Municipal e de várias associações ligadas ao mundo educativo.
Falava-se, há dez anos atrás, que o Agrupamento era inevitável. E foi.
Falava-se, há dez anos atrás, que se deviam aproveitar os fundos comunitários para dotar a Escola da Portagem dos equipamentos em falta para estar preparada para eventualmente receber os alunos de Santo António.
Não se fez obra, não se fechou a escola, ainda.....mas até quando?
Falava um Dr Paulo, do Gavião, da Direcção Escolar de Portalegre, que as mudanças eram inevitáveis, que o Ministério se regia por números, e que mais valia aceitar e tirar o melhor proveito possível das mudanças.
Mas falava para uma parede, porque o então (e agora) Presidente nada fazia, nada faz, nada fará.
Culpando este mundo e outro dos problemas que são iguais aqui como no Baixo Alentejo, Beira Alta ou Trás os Montes. Falava mas aqui não se fazia, não se faz, não se fará. Porque é mais fácil culpar quando vem o decreto, quando vem o fecho definitivo, que é culpa dos senhores de Lisboa, nunca dele.
De há dez anos para cá pouco mudou, o pouco que mudou foi imposição de fora...

Hoje inaugurou-se o Centro Escolar de Sousel. Um edifício bonito, moderno, colorido.
Lá os problemas serão semelhantes, Há cada vez menos alunos, com certeza foram fechando as pequenas escolas das freguesias e transitaram os recursos para o novo Centro.
Não é bom, é um facto, mas tirou-se partido da situação para fazer melhor pelas crianças, para lhes dar condições para crescerem e serem educadas da melhor forma possível.
Pois...

terça-feira, 17 de novembro de 2015

O ponteiro dos minutos

Ralharam comigo porque tinha a porta fechada. Tinha ido lá a cima à Estalagem trocar a roupa nas máquinas e demorei-me mais da conta, afinal eles tinham vindo desde o Vale de Ródão até Marvão, só para vir à Mercearia.
Queriam uma pilha para o relógio da mesa de cabeceira. 
Só posso vender as quatro, disse eu, que o pacote é assim.
- Oh homem, tira lá a navalha que mesmo agora experimentamos.
O relógio era antigo, não tinha ponteiro dos segundos, pelo que mudada a pilha, nada aconteceu.
- Agora temos que esperar, que passem os minutos, e assim se comprova, que já está bom a dar as horas.
Esperámos os minutos que o relógio quis dar, perguntaram-me se o meu marido já tinha chegado a sargento, e pelo meu cunhado de quem são muito amigos.
Esperámos e conversámos porque o tempo é nosso, o tempo somos nós que o fazemos e aqui temos tempo.
E entretanto o relógio avançou.
Adeus e obrigada, até outro dia.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A balança da pequena merceeira e os clientes judeus


Quando entraram eu estranhei. Andava atarefada, para trás e para diante, ainda a arrumar a loja, depois do fim de semana agitado da Feira.
Fiquei surpreendida porque vestiam os dois roupa escura, chapéu característico, corte de cabelo característico, e barba. Falavam uma língua indecifrável misturada com um simpático inglês e ainda italiano.
Eram judeus e eu não os devia estranhar, porque esta é uma região de tradição judaica, como atestam as tradições e a sinagoga da vila de Castelo de Vide, as cabeceiras de túmulo do Museu de Marvão ou as ombreiras das portas de Alpalhão.
Mas estranhei porque não é habitual, assim tão visivelmente a rigor, confesso.
Compraram um Guia de Marvão. Depois, ainda, um saco de avelãs. Ao darem a volta à loja, foram encontrar a balança de brincar que eu tenho guardada numa prateleira, para quando a pequena merceeeira me vem "ajudar", nas tardes do fim de semana.
- Is it for sale?
- No, I'm sorry, it's my daughters toy, When she comes to help me here in the store.
- How old is your daugther?
- I have a girl with 8, a boy with 4 and another boy with 2.
Sorriu e disse:
- You must be happy
E foram-se embora, depois do cumprimento de despedida
E a verdade é que sou. Por isso, e por tanto mais.

terça-feira, 28 de julho de 2015

(quando há vontade, todos nos entendemos :))

"Holla. I have a question: La posta, quando es abierta?"
(eu sorri, esta turista para fazer uma pergunta falou em três línguas. Eu respondi em português)
- Abre às duas

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Das coisas bonitas e positivas

Festival Andanças (Oficial), que veio dar uma nova vida à zona da Barragem da Póvoa e Meadas, mostra uma clara preocupação em adaptar-se aos costumes locais, construindo as suas primeiras "estruturas fixas" de forma semelhante às choças, tradicionais na região.
Claro que não são exactamente iguais (até porque o fim também é diferente, as choças eram maioritariamente para guardar animais e instrumentos agrícolas) mas o cuidado está lá, e isso é muito positivo registar smile emoticon
Go Andanças Go!

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ai Alentejo, Alentejo

Tanta coisa em comum: a falta de ligação à Internet de qualidade, a falta de rede de telemóvel, a falta de transportes públicos, o reduzido número de crianças em idade escolar...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Acknowledgments

A Mercearia estaria aberta há pouco tempo. Tenho ideia que sim
E por isso esta história começa há três anos atrás.
Veio ter aqui comigo.
Apresentou-se, disse que era investigadora, norte-americana, que estava a preparar uma tese sobre os conflitos na fronteira Hispano-Portuguesa. Que queria consultar os arquivos de Marvão, mas que ninguém a conseguia ajudar
(curioso, não é, mandarem os investigadores vir ter comigo à Mercearia)
Disse-lhe que tinha pena, mas que já não estava a realizar esse trabalho. Disse até, que me custava essa proximidade paredes meias, com o serviço que ajudei a montar e que me foi retirado.
Ficámos a conversar, contou-me a história dela, contei-lhe a minha.
E acabei por ir lá, pegar no inventário, ajuda-la, orientar o tipo de documentos que lhe poderiam ser úteis.
Trocámos contactos e nesse verão seguinte ainda voltou, com a família, para confirmar uma ou outra referência, para passear.
Ontem chegou no correio um pacote para mim. Pesado. Quando abri não reconheci.
Era o livro dela. O resultado da sua investigação. Fronteirs of Possession,
Da Professora Tamar Herzog que é "SÓ", professora na Universidade de Harvard...
Mandei-lhe um email. Agradeci-lhe o gesto.
Respondeu-me, "Catarina, o gesto foi seu"

Há momento que, não alterando a realidade das coisas, muito consolam...





ta há pouco tempo. Tenho essa ideia

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O ministério das finanças manda e a "gente amocha"

Dois garrafões de azeite, oito rolos de papel higiénico, trinta pacotes de esparguete, setenta e um pacotinhos de natas para bater
Há tarefa mais maçadora que fazer o inventário ? Não conheço

domingo, 4 de janeiro de 2015

Já o azeite, verdadeiro ouro alentejano, também não lhe fica atrás

Buenas tardes, señora, quería aceite de oliva local

- Sim, tem esta prateleira cheia. Todos estes são garrafas de azeite extra virgem, acima tem também garrafões de virgem ou extra virgem
- Bueno, y a cuánto queda el litro?
- Dependerá da marca, tem várias marcas diferentes
- Está bien, y la acidez?
- O azeite virgem extra vai até 0,8 de acidez
-Es que quería el aceite que mi marido experimentó ayer en el restaurante, estava riquíssimo
- Sim, e perguntou a marca?
-No, no lo sé. Fue en la posada, de Flor da Rosa
- Pois, acredito, mas não consigo ajuda-la. lamento

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Ah espera, podia ter estado nevoeiro ou a chover...só que não

Final do ano
Entre o Natal e o Ano Novo há bastante movimento de turistas, as unidades hoteleiras estão com elevada taxa de ocupação e os restaurantes servem muitas refeições.
Muitos perguntam na Mercearia:
- Então, Marvão tem alguma festa de ano novo?
- Só as organizadas em restaurantes. Já no Natal, o único evento que tenho ideia foi um concerto (bem bonito) organizado pela Associação de Jovens local.
- Mas o fogo de artifício não pode faltar, não é?
- Creio que vai falhar sim...
- Ah, Marvão é uma vila muito sossegada
- Hum...sim, sossegada e sem ideias...

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Companheiros de luta

Estava um frio horroroso logo de manhã e eu fiz o senhor esperar por mim na rua até conseguir abrir as portadas da loja
Depois entrou e pediu pão.
Perguntou-me com alguma hesitação:
- Foi a senhora que teve um bebé este ano, não foi?
- Eu? tive no ano passado - Disse, estranhando.
- E pesou 900 gramas, não foi?
- Sim, até chegou às 690 gr. Pelos vistos é um bebé famoso
Sorriu
- É que nós tivemos um este ano um pouco mais pesadinho, com um quilo e meio
Agora fiz eu o sorriso hesitante
- Muito duro, não é?
- Terrível...
E despedimo-nos assim, com o conforto de quem se entende

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

É fatal como o destino

O pães grandes vêem sempre no fundo da saca

E os clientes que encomendaram pães grandes são sempre os primeiros a chegar à mercearia

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Ah, o empreendedorismo é tão bom...

Mãe Merceeira - Vá filha, vamos a levantar, hoje é dia de irem para a Ludoteca
Pequena Merceeira - Oh, mas porquê? Eu quero dormir mais
Mãe Merceeira - Porque a mãe tem que ir trabalhar
Pequena Merceeira - Pois, tu trabalhaste até no Natal
...

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Uma questão de educação...

Uma das áreas em que eu senti sempre com mais intensidade o preço a pagar pela interioridade foi a educação.
No presente ano assistimos a algo que parecia estar em retrocesso mas que agora volta a ser uma realidade banal: a junção de vários anos de escolaridade na mesma sala, com o mesmo professor.
Porque são os números que contam, não o processo educativo ou a aprendizagem das crianças. Juntam-se crianças para poupar nas turmas, por consequência nos salários a pagar aos professores.
Por todo o lado é assim, claro que nas terras onde as crianças vão escasseando cada vez mais o problema é muito mais agudo.

Hoje foi o dia de deixar a minha filha mais velha na "escolinha dos grandes" pela primeira vez.
Um dia feliz, um dia de conquista e mentalização que o tempo passa depressa e ela já é uma menina crescida, mas ainda assim, a minha menina, o meu primeiro bebé.
Ficou na escola que já conhecia, com uma professora que eu muito estimo. Parecia tudo perfeito, não é?
Longe disso.
No primeiro ciclo da escola da minha filha só há duas turmas. A que junta o primeiro e quarto ano e a que junta o segundo e terceiro ano. Assim mesmo. Se faz sentido? Obviamente que não. Alunos que entram na escola pela primeira vez juntos com alunos que no final do ano lectivo farão exames nacionais...mas lá está, as crianças não interessam aqui, interessam os números.
Um desafio imenso de desmultiplicação para a professore, uma profissional empenhada, que sei que é, mas não faz milagres ainda...Até porque aos professores hoje em dia já só falta exigirem isso mesmo, milagres...

O absurdo na escola sede do agrupamento ainda é maior. Com três turmas de primeiro ciclo  mas novamente pelos números, divide-se os poucos alunos do primeiro ano para os juntar ao 2ª e 3ª ano respectivamente...Economizando nas turmas, poupando dinheiro ao ministério...
E ficamos por aqui? Não mesmo!
Ontem apercebi-me de uma realidade ainda mais estranha, houve dois professores de primeiro ciclo que foram recolocados no agrupamento (não sei se é assim o termo), não tinham portanto turma destinada mas pertencem aqui.
Estes dois professores vinham então, pela lógica, resolver o problema na escola sede,completando a turma em falta e minorando a questão na outra escola. Mas não, o ministério não autorizou...pela questão dos números presumo, e então estes dois professores ficam noa grupamento, sem turma, a dar apoio às existentes...

A associação de pais batalhou e por isso está de consciência tranquila. Foi de Marvão a Évora reunir com  a Direcção Regional de Educação do Alentejo. Não entrou pela questão dos números que não valia a pena, tentou batalhar pelas areis movediças do apoio educativo a crianças com necessidades educativas especiais. Batalhou com as armas que tinha, veio derrotada, mas foi à luta.
Da autarquia não ouvi nada. Se tentou alguma coisa não me apercebi, sinceramente. Mas faz sentido, as eleições não se ganham nas escolas, longe disso, ganham-se no extremo oposto aliás, nas festas dos velhinhos que se adiantam para se distribuírem aos ditos uns beijinhos e umas pancadinhas nas costas.

Das crianças nada. Eterniza-se a questão da junção das duas escolas ,que eu particularmente defendo (pois antes uma escola boa e completa do que duas assim-assim) por puro populismo e bairrismo, não querendo desagradar ao lado norte da montanha concelhia, e não aproveitando as obras de melhoramento que poderiam daí vir. Até que a junção das escolas se dê por decisão superior, com obras ou sem elas, porque vai acontecer inevitavelmente, mas já havendo um culpado. Foi de cima, dirá o sr. Presidente da Câmara, a culpa não foi minha, que é uma posição que ele tanto gosta e tanto lhe convém.

E eu penso nesta pirâmide de responsabilidades onde insiro a autarquia, a direcção da escola, a direcção regional do Alentejo e o Ministério da Educação e pergunto-me se dormirão tranquilos de noite sabendo que estão longe de proporcionar às crianças de Marvão (e a tantas outras) as melhores condições de aprendizagem possível. Porque no meu íntimo, não consigo conceber que as crianças mereçam menos que o melhor.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A casa, que é deles



Hoje de manhã conversava com uns clientes simpáticos que estranhavam o facto de a nossa família ter tomado a opção de viver em Marvão, apesar das dificuldades, da desertificação , da falta de serviços e de emprego. Diziam-me que era arriscado, só por si mesmo, hoje em dia, pôr três filhos no mundo, quanto mais numa terra sem hospital, ou escola, ou farmácia todos os dias...
Expliquei-lhes que tinham razão mas que na balança para mim pesavam mais, muitas outras coisas. Umas palpáveis, outras nem por isso. Que qualidade de vida, para mim, rima com esta vila no topo de uma montanha.
Hoje que o N. regressou ao trabalho e me pesam nos ombros (e nas pernas) as dificuldades de gerir este edifício sozinha, pois as escadas são muitas e a barriga cada vez mais pesada...estas palavras soam baixinho, e penso nelas e no seu sentido.
Todos temos dúvidas, tantas e tantas vezes...
Mas reparei nesta foto que o N. tirou ontem antes da procissão passar. Esta casa que há dois anos era uma ruína e que se tornou num sonho. São dois anos e parece uma vida...
Reparo nestes meninos loiros de sorriso rasgado, sentados no degrau desta casa, desta loja. Crescem aqui, criam as suas memórias aqui. Esta casa é deles e fez-se assim bonita, por eles.
E sigo assim mesmo, com dúvidas, por vezes muito cansada, mas sempre cheia de esperança!

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Com as autárquicas à porta...

O Nuno costuma dizer muitas vezes que " para que o mal triunfe, basta que os bons não se importem" E esta frase serve bem para introduzir este post sobre a política local e as eleições que estão próximas. Claro que é uma frase exagerada, não há "mal" nem deixa de haver, a mensagem que eu quero fazer passar é que não há nada mais conveniente ao poder instalado do que o silêncio das pessoas que têm opiniões. Sobre seja o que for. Ora a minha opinião sobre a política local está longe de ser "desapaixonada" (calma, eu sei que a palavra não existe), mas é com toda a certeza desinteressada. Seja quem for que ganhe no dia 29 de Setembro, eu não fico melhor nem pior,com toda a certeza não vou ganhar nem perder grande coisa, e sabe quem me conhece pessoalmente, quão foi difícil e penoso, pelo meu percurso profissional, ganhar esta liberdade de expressão. Sabendo à partida que, desta vez, não me vão pesar nos ombros as vitórias e as derrotas, isso não significa que irei ficar calada quando o assunto é importante e nos toca a todos. E por isso cá vai, escrito e assinado:

O poder instalado tem obra feita, É inegável dize-lo. Deixou a sua marca em oito anos no poder. Fez um ninho de empresas, fez uma mini zona industrial, requalificou-se a Zona da piscina fluvial da Portagem, fez e melhorou acessos rodoviários, comprou terrenos (aqui não sei bem para quê, mas enfim). Teve a belíssima iniciativa de ceder um terreno para a APPACDM construir um lar, criando uma estrutura que vai gerar emprego e dinamismo, salvou o Infantário de fechar. Destaco estes feitos mas há mais, nunca ninguém me ouvirá dizer o contrário, até porque está à vista de todos. A situação financeira do município é boa (herança que vem de vários presidentes atrás) e o serviço da dívida não é extenso. Mas senhores, qualquer gestor sabe que esses números dependem daquilo que se investe, certo? E não me venham cá falar de estudos à qualidade de vida e outros que tais, o concelho tem cada vez menos serviços, está cada vez mais desertificado e nascem cada vez menos crianças. É essa a realidade dos números, é isso que interessa, porque os estudos, esses, como tudo, servem interesses, relatam aquilo que interessa relatar.

 Na gestão municipal local, honra lhes seja feita, salvam-se as Juntas de Freguesia. Todas as quatro, não distinguindo nenhuma e portanto nenhum partido. Pelo seu serviço de proximidade ao cidadão, pela acção contida e equilibrada, à medida dos seus poderes e do seu orçamento. Porque será que o serviço público é tão mais sem vícios nas freguesias? Terá a ver com salários meramente simbólicos? Cada um que diga o que pensa...

É que ter obra feita, para mim, está longe de ser tudo... Eu acho que o factor de desenvolvimento (e de sobrevivência) do concelho de Marvão é o Turismo. Claro que todos os outros sectores são importantíssimos e respeito quem considere que a agricultura ou a indústria sejam decisivos, mas na minha opinião, é no Turismo que Marvão se pode diferenciar e progredir. É por isso mesmo que considero que este executivo nesta área falhou redondamente, aliás, atrevo-me a dizer que teve uma acção MEDÍOCRE!
No Turismo, andou para trás e para diante em manobras com a Candidatura de Marvão a Património Mundial, desconhecendo claramente o processo, desrespeitando o tanto que já estava feito, perdendo a corrida em toda a linha para terras tão próximas e ainda mantendo teimosamente essa bandeira sem saber claramente o que tem em mãos. Mau, muito mau. No mês de Setembro a Candidatura é apresentada pela enésima vez....Eu no programa colocaria antes RE-re-re-re-re apresentação da Candidatura de Marvão a Património Mundial...Claro, no mês de Setembro, porque é conveniente...mas se ainda existisse em alguém a esperança que "desta é que era" mas enfim, digo e repito que o mais triste de tudo é o desconhecimento por completo do que o processo significa, para onde se vai, como se faz...
E a alienação do nosso maior monumento (intervencionado aliás, com gosto duvidoso) para as mãos de una associação? Enfim...já aqui tive oportunidade de escrever sobre o assunto...
Começaram-se as obras no Museu Municipal, tão necessárias, mas deixámos escapar verão por entre os dedos. São as obras no nosso Portugal, pois sim, pois sim...
Os percursos pedestres, pelos quais já somos conhecidos mas era tão importante sinalizar, manter, mapear, dar a conhecer, divulgar. Onde estão? Porque não se investe, já que até se pode considerar um investimento reduzido?
Na Cultura (que eu associo bastante ao turismo) enfim, é deplorável...O nosso maior evento, a Feira da Castanha, continua imutável, sem dinamismo ou novidade alguma, como que a esperar que a glória do passado perdure e se mantenha, quando todos sabemos que não é assim. Criou-se a Almossassa mas mais uma vez nada se fez por ela, em vez de a fazer crescer enquanto evento novo que é, é vê-a marinar em lume brando e pouco empenhado. Perdeu-se a Feira do Artesanato e Gastronomia. Esgotou-se o modelo? Está bem, está, digam isso ao Crato, por exemplo,que teve este ano mais de 50 mil visitantes, abandonou-se o modelo, que é mais fácil... Faz-se uma Boda Régia? Sim, porque os vizinhos espanhois querem. Faz-se um Festival de Juventude? Faz, porque as associações de jovens querem. Para o ano não se sabe, logo se vê Multiplicam-se, para salvar o quadro, as Semanas Gastronómicas, requerendo pouco trabalho e transferindo a acção/lucro para os restaurantes... E muitos aspectos de graves falhas e deficiências no departamento cultural se poderiam destacar ,porque eu sei que a cultura não são só as festas mas aí confesso, é mesmo por tristeza pessoal profunda, aliás, é por revolta, que nem toco no assunto.

Depois está algo tão à vista de todos como a obra feita: a ausência do trabalho em equipa. Um líder que na maior parte das vezes nem faz nem deixa fazer, que aparece nos cartazes sozinho, que exclui quem não pensa de forma igual como se de leprosos se tratassem. Que dá ouvidos a boatos e a "diz que disse" e que não olha nos olhos as pessoas com quem fala. Que líder é este? É o líder que merece quem lhe deu o voto, e não foram poucos...

Eu sei que tinha muito mais a ganhar em estar caladinha.O que digo não interessa a muitos nem influencia nada. É um facto. Eu sei que tenho uma porta aberta e devia ser mais cautelosa. Eu sei bem o que é viver numa terra pequena e como é difícil estar do lado errado.
Mas tenho consciência. Penso. E até ao dia de hoje, não precisei de arranjar desculpas para ficar calada...

A questão é que, digo e volto a dizer, eu de momento não tenho lado. Cresci com os meus próprios erros, desiludi-me com a política em geral. Com este texto, eu não venho apelar ao voto em A,B ou C, porque sinceramente, eu não sei se outros no mesmo lugar seriam melhores, mais justos, mais equilibrados...

Mas o sangue ferve-me quando vejo o Dia do Empresário que normalmente era comemorado em Maio passar para o início de Setembro. Fico espantada ao ver anunciado para Setembro também, what else, o leilão de terrenos que estiverem vários anos parados...Enervo-me quando vejo chegar o cartaz da Festa do Idoso com data de 15 de Setembro quando há uma data mundial para essa efeméride que é 1 de Outubro...

Eu queria governantes que trabalhassem para TODOS os seus munícipes sem exceção, e não em proveito próprio ou dos seus apaniguados. Eu queria não ter sido afastada do meu interior emprego por "falta de verbas" mas ver entrar para o quadro pessoas que lá estavam há menos tempo mas pertenciam ao círculo certo (como o actual vice-presidente, só para dar um exemplo). Eu queria ter assumido o concurso público que concluí em primeiro lugar, mas em vez disso anularam-no só porque fui eu que o ganhei. Eu queria tanta coisa.
Queria principalmente ter esperança que tomei a decisão certa ao ficar.
Que acertei quando escolhi esta terra para os meus filhos nascerem.
Queria sentir-me menos sozinha no relacionamento, tão necessário, com o poder. É que ter a consciência tranquila, como eu sempre tive, ou a razão (se é que ela existe) do meu lado, não chega...

 Mas tudo isto, na minha terra e no meu país é impossível. É mesmo impossível...

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O papel

Para se fazer qualquer coisa neste país são necessários mil "papéis"
Uma pessoa sofre, literalmente, para tratar de qualquer burocracia que seja. Há sempre uma "papel" que não está bem.
As aplicações que já surgiram online (ex: segurança social directa, portal das finanças, net emprego) não facilitam, muito pelo contrário, de tão complicadinhas que são. A única diferença é que complicamos em casa em frente ao computador e não numa repartição.
Se por um lado no interior o acesso Às instituições  é mais facilitado, porque se conhece sempre alguém simpático e disponível a ajudar, por outro tudo corre lento, lento.
A partir de amanhã eu vou dar um emprego. Um emprego com contrato, com descontos, com seguro, com subsídios. Tudo como deve ser, tudo como é de lei. Deviam-me levar em ombros por estar a criar emprego numa época destas, mas não, sofro em cada passo que tento dar.
Por culpa da burocracia. Por culpa dos papeis.