quinta-feira, 5 de março de 2026

Mi Mi Mis

 Há sempre qualquer coisa de curioso nestas crónicas que se irritam com o chamado “pop alentejano”, como se a música tivesse a obrigação moral de ser um relatório sociológico... ou, melhor ainda, um boletim de tragédias. Parece que cantar o Alentejo com beleza, poesia ou até algum romantismo é quase uma fraude estética, um gesto suspeito. Como se a arte estivesse proibida de embelezar a realidade.

Fico a pensar no que o cronista preferiria ouvir nas manhãs da Rádio Comercial: Talvez um refrão sobre estatísticas de suicídio, uma balada sobre despovoamento, um dueto sobre a pobreza estrutural? Algo suficientemente cru para que ninguém corra o risco de gostar demasiado da paisagem.
É evidente que o Alentejo tem problemas... e sérios. Mas também é verdade que esse retrato de abandono não é monopólio da planície. Poderíamos falar da Beira Baixa, de muitas terras das Beiras, ou de Trás-os-Montes. Há um país inteiro que raramente aparece nos radares televisivos e que só emerge, de vez em quando, nas notícias: nas tempestades que deixam aldeias às escuras, nas pontes que caem e isolam localidades, nos fogos que percorrem milhares de hectares como se o território fosse descartável.
Talvez por isso a arte exista: para que a realidade não seja apenas inventário de desgraças. Para que uma terra possa ser cantada, mesmo quando a vida ali não é fácil.
Porque amar uma terra na sua plenitude, já se sabe, é monopólio de quem cá está, de quem fica, de quem resiste. O resto será sempre conversa.
Não temos culpa que não entendas este sentimento de pertença, Henrique Raposo!
Por mim, gostava que fosse precisamente o pop alentejano a ganhar o Festival da Canção este fim de semana. Este ano diz-se que o festival está profundamente politizado. Talvez esteja, pelo menos à superfície. Mas a música, essa, continua inevitavelmente política. Nem que seja pelo simples acto de insistir em cantar um lugar.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Queijos do Monte Queimado (Montalvão) - edição 2026!


 

Já chegaram os famosos queijinhos mal cheirosos do Monte Queimado – edição 2026!
Bem cremosos, protegidos com cinta de tecido e com aquele aroma forte que anuncia o sabor autêntico de sempre.
Não deixe escapar, freguês!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

 Conto de Natal – As velhas que não são nem para os gatos

Naquela terra pequena do interior, encravada entre montes e árvores antigas, os homens iam morrendo mais cedo do que as mulheres. Uns porque a vida lhes pesara nos pulmões, outros porque o vinho e o silêncio lhes tinham feito a cama, outros ainda porque simplesmente assim é nas terras onde o tempo corre devagar e a dureza do trabalho não perdoa. Ficavam elas. Sempre elas. As mulheres. Viúvas por hábito, por destino ou por antecipação.

A vila sabia distingui-las sem nunca o dizer em voz alta, como se fosse um saber antigo, passado de geração em geração, mais antigo do que o sino da Câmara Velha.

Havia as primeiras: as que sobreviviam não só aos maridos, mas também ao cansaço. Eram as mulheres da família e da comunidade. Faziam camisolas para os netos, sopas para quem estava doente, bolos para as festas e flores para a procissão. Sabiam o nome de toda a gente, lembravam-se dos aniversários, perguntavam “como está a perna?” ou “já passou essa tosse?”. Eram activas, bondosas e simpáticas, mesmo quando a vida lhes tinha levado quase tudo. Tinham aprendido que dar era uma forma de continuar a existir.

Depois vinham as segundas: as que não gostavam muito de pessoas, mas não faltavam à missa. Sentavam-se sempre no mesmo banco, conheciam os cânticos de cor e benziam-se com rigor quase militar. Não tinham grande paciência para conversas nem para visitas, mas exprimiam amor de outra maneira: cuidando dos animais. Alimentavam gatos vadios, falavam com cães como se fossem gente, deixavam restos de comida à porta, “para quem precisar”. O mundo humano cansara-as, mas ainda acreditavam numa bondade silenciosa, de quatro patas e olhos atentos.

E havia as terceiras. As que a vila chamava, com crueldade e verdade misturadas, as velhas que não são nem para os gatos.

Essas não gostavam de ninguém. Nem de pessoas, nem de animais, nem de nada que respirasse. Reclamavam do tempo, ou estava frio de mais ou calor de mais; dos preços, tudo caro, tudo um roubo; das dores, no joelho, nas costas, no estômago, na alma; e, sobretudo, do outro. Tratavam mal sem motivo aparente, como quem distribui fel porque já não sabe fazer outra coisa. Tinham incorporado a solidão de tal maneira que ela lhes crescera por dentro, endurecendo-lhes o olhar e a voz.

Eram uma espécie de Grinch à portuguesa, sem gorro verde nem riso maquiavélico, mas com um xaile gasto e uma lista interminável de queixas. Nunca estava nada bem. Se chovia, estragava-lhes os ossos; se fazia sol, dava-lhes dores de cabeça; se havia festa, era barulho; se havia silêncio, era abandono. Viviam numa prisão que ajudaram a construir, pedra a pedra, palavra amarga a palavra amarga.

Chegava o Natal e a vila mudava de cheiro. A lenha ardia, o açúcar queimava devagar nas rabanadas, o sino tocava com mais vontade. As primeiras mulheres enchiam as casas de gente. As segundas iam à missa do galo e deixavam um prato extra para o gato do vizinho. As terceiras… ficavam sozinhas.

Sozinhas, mesmo quando diziam que preferiam assim. Reclamavam que as bolachas já não eram como dantes, que o queijo lhes fazia mal ao estômago, que ninguém pensava nelas, mas não abriam a porta a ninguém. Ou melhor, diziam que não queriam abrir, quando no fundo era isso que mais temiam.

Naquela véspera de Natal, uma das primeiras mulheres, dessas que sabem ouvir o que não é dito, bateu à porta de uma dessas velhas que não eram nem para os gatos. Levava um prato simples, um pedaço de bolo, e sobretudo uma frase curta, sem moral nem sermão:

“Boa noite. Pensei em si.”

A velha resmungou. Disse que estava frio, que aquilo lhe fazia azia, que não tinha pedido nada. Mas a porta ficou entreaberta. E naquele espaço mínimo entrou o cheiro do bolo, o calor de outra presença, a ideia perigosa de que talvez ainda fosse possível não estar sozinha.

No Natal, naquela terra pequena do interior, continuaram a existir viúvas, categorias e solidões. Mas também ficou provado, pelo menos uma vez por ano, que mesmo as velhas que não são nem para os gatos são, afinal, gente. Gente cansada, azeda, difícil, mas gente. E que são elas, precisamente elas, que mais precisam de uma palavra de conforto e de uma porta aberta, nem que seja só por um instante, na noite em que o mundo inteiro parece lembrar-se de amar.

domingo, 29 de junho de 2025

"O Rei que Caiu da Torre" - O conto dos dias que passam


Era uma vez, num reino distante, onde havia um monte com um castelo altaneiro , um rei chamado Dom Teimoso I. Vivia no alto da sua torre de granito, rodeado por uma corte que lhe fazia vénias tão profundas que às vezes ficavam com torcicolos por três dias seguidos.
A corte era formada por nobres de fina estampa e língua mais fina ainda, especializados em beijar anéis, levantar taças e virar casacas — por esta ordem. Enquanto o rei brilhava, eles brilhavam junto, como espelhos sujos numa sala mal iluminada. Chamavam-no de "Sol de Justiça", "Estrela do Alvor", "Guardião do Reinado e dos Restos do Banquete".
Mas eis que veio a crise.
Foi um vendaval de desgraças: maus conselhos, más decisões, más companhias, más ideias — um verdadeiro festival de "más". O castelo já não reluzia, a torre tinha infiltrações, e os jornais davam notícia desta desgraça e corrupção. A coroa pesava, e os sorrisos da corte ficaram mais apertados que os fatos de gala.
A corte, sensível como termómetro em febre alheia, começou a afastar-se discretamente. Primeiro pararam de fazer vénias, depois começaram a tossir sempre que o rei passava, e por fim, convidaram-no educadamente a abdicar. Um deles — o Conde de Muda-Rumo — chegou a dizer:
"Majestade, talvez Vossa Alteza devesse fazer uma pausa real. Ir, sei lá... pastorear, meditar, fazer azeite para o lagar. Por nós, claro. Pelo reino. Pela posteridade!"
O rei, fragilizado, caiu. Mas não literalmente (havia corrimões). Caiu no conceito, na praça pública e, sobretudo, caiu na conta de que a sua corte não passava de um grupo de bailarinos que só dançava ao som da fanfarra da vitória.
No passado, esta corte já tinha cortejado outros reis, outros candidatos, outras siglas. Fizeram juras de lealdade a quem estivesse de pé, enquanto chutavam discretamente quem estivesse de joelhos. Diziam mal do antigo rei em jantares, em cafés e até na fila do confessionário.
Mas o mundo, como a roda da carroça do velho ferreiro, gira.
E um dia, por astúcia, acaso ou tédio da desgraça, Dom Teimoso I voltou a erguer-se. Retomou o trono, agora um pouco mais desconfiado, um pouco mais ranzinza e — o mais importante — com binóculos na mão. Binóculos, sim, para ver de longe quem vinha bajular e lembrar-se quem partiu na primeira borrasca.
A corte, claro, voltou a correr. Chamaram-lhe de novo "Sol", "Luz", "Fénix", e garantiram que tinham sempre acreditado nele (embora os arquivos do reino dissessem o contrário). Culpavam agora a oposição, a imprensa, a astrologia e até a má colheita de nabos pelo afastamento do rei.
Esqueceram-se de que o povo, embora simples, não tem memória curta. Viram bem quem andou a acenar a outras bandeiras, quem renegou jantares antigos, e quem trocou fidelidade por conveniência.
Mas mais do que o povo, quem não esqueceu foi o próprio rei.
Dom Teimoso I, de novo em cima da torre, agora não convidava para banquetes os bajuladores de ocasião. Recebia poucos, ouvia menos, sorria quase nunca. E quando o Conde de Muda-Rumo lhe ofereceu um brinde, ele respondeu:
“Obrigado, Conde, mas prefiro água. A vossa taça cheira a esquecimento.”
E assim viveu, governando com cautela, binóculos e um diário secreto onde escrevia, todas as noites, os nomes daqueles que o traíram — com tinta permanente.

sábado, 15 de outubro de 2022

Activos territoriais

 A minha filha mais velha entrou este ano para o ensino secundário. Para quem mora em zonas rurais, normalmente o 10º ano significa o sair da terrinha para ir para a cidade grande, onde se pode completar o liceu. Significa ainda que a turma já não é composta por alunos que residem todos no mesmo concelho para ser composta por alunos provenientes de vários concelhos do distrito.

Esta semana pesquisei sobre o que significa o termo "activos territoriais", na medida em que por vezes há expressões que servindo nos textos políticos ou de investigação, não fazem muito sentido na nossa cabeça. Afinal o que são estes activos? Têm a ver com a comunidade, com as potencialidades ou com a economia de um território?E fiz a ligação entre esta questão dos activos territoriais com uma conversa que tivemos num destes dias à hora do jantar.

Dizia-me a minha filha que tem na turma vários colegas de Arronches. E que estes colegas adoram a sua terra. Enaltecem todos os dias as vantagens da terra onde moram e é aí que se vêem no futuro.  Ela não é assim, ou pelo menos não é ainda assim. Sonha com a vida nas grandes cidades e com as grandes oportunidades. Tudo certo, são escolhas.

Comentei com ela que amar a terra onde se nasceu e considerar essa marca inicial para os planos de vida é importante. Porque a nossa terra molda a nossa identidade, aquilo que valorizamos e a forma como mais tarde escolhemos ou não contribuir para a comunidade. 

Voltando aos activos territoriais, após pesquisar percebo que ativos  são fatores em uso, utilizados na produção de mercadorias ou serviços num determinado território. Já os recursos são fatores a revelar, a desenvolver ou a organizar como potenciais reais. As estratégias de especificação de ativos territoriais podem ser consideradas formas de valorização das vantagens sustentáveis dos territórios, na perspectiva de contribuir para a qualificação de seu processo de desenvolvimento.

Quando pensamos em desenvolvimento territorial visualizamos um processo de mudança continuada,  na história , mas integrado em dinâmicas internas e externas, sustentado na potenciação dos recursos e ativos (materiais e imateriais, genéricos e específicos) existentes no local, com vistas à dinamização socioeconômica e à melhoria da qualidade de vida da sua população.

Ora, eu sempre vi Marvão como uma terra de grandes potencialidades, até aqui não lhes tinha dado o nome de activos territoriais, mas que o nome é bonito, de facto é. E são activos variados, na medida em que encontramos os naturais e os patrimoniais. Quando a identidade territorial é forte cabe às comunidades e aos seus governantes usa-las em seu favor, na medida em que:

1. a identidade territorial contribui para a melhorar a transferência intergeracional do saber

2.o sentido de pertença é aglutinador das relações económicas

3. É importante que os agentes económicos tenham uma postura crítica e inovadora, sempre pensando na mudança

4. Para tirar partido dos elementos diferenciadores de um território é indispensável haver planeamento e estratégia política

5. Os activos territoriais e identitários moldam um apego afectivo da comunidade aos valores paisagísticos e culturais.

Quando pensamos no sítio onde vivemos unicamente na perspetiva de aí trabalharmos para ganhar  dinheiro, consumimos de forma predatória os recursos naturais, sociais ou culturais. Já quando existe um sentimento de pertença e de ligação, somos mais capazes de gerar um desenvolvimento positivo, solidário e com mais garante de sustentabilidade a longo prazo.

Nada do que envolva sentimentos pode ser forçado, mas neste caso em particular da minha mais velha, já que não se pode forçar então que se eduque e estimule.

No próximo mês, e aos 15 anos, ela vai ter oportunidade de o expressar em público pela primeira vez pois respondeu ao OPEN CALL JOVEM ( 20 anos do I Fórum Marvão) 




Seja o que for que escolha dizer, já é um orgulho.



quarta-feira, 20 de outubro de 2021

A minha primeira Assembleia Municipal ou como o feminismo só faz sentido na primeira pessoa

Cheguei mesmo em cima da hora. Creio mesmo que fui vergonhosamente a ultima a entrar. A bonita sala da antiga fronteira de Marvão estava cheia e preparada para a tomada de posse da Câmara e da Assembleia Municipal 2021/2025.

Não serve, nunca poderá servir de desculpa, mas sou mãe de uma família numerosa, faço gestão de uma micro empresa já com várias valências e sou empregadora. Apesar das muitas horas que trabalho todos os dias da semana assumi no dia 18/10 um compromisso que só vou falhar se algum dia me faltar (ou aos meus dependentes), a saúde. Não entendo outra forma de estar no serviço cívico na medida em que a minha terra é um dos meus amores mais fortes, presentes e permanentes. 

Tenho orgulho no lado da sala em que me sentei. Foi o partido mais votado e obteve maioria, mas principalmente porque  sinto que  todas aquelas pessoas a quem chamo colegas de bancada partilham do mesmo compromisso e o mesmo empenho. A outra bancada teve uma baixa mesmo antes da Assembleia ser marcada. O seu cabeça de lista abdicou. Desconheço as razões, tal como desconheço a razão para a abdicação de outro cabeça de lista do mesmo partido a uma das Juntas de Freguesia. Sintomático? Não sei, cedo para avaliar.

Tudo correu de forma serena: os juramentos, assinaturas, votações para as numerosas comissões a que membros da Assembleia pertencem. Fiquei na Comissão de Toponímia que é um tema que muito me agrada e para o qual me esforçarei para dar um contributo válido.

A minha bancada tinha o trabalho preparado e bem organizado e todos tivemos voz ao longo da sessão, propondo colegas para a constituição das comissões. Fiquei sensibilizada e agradada com este pormenor, ter tido voz desde o primeiro momento e por isso mesmo só posso desejar que assim se mantenha.

Foi mesmo no final que o o meu coração acelerou um pouco mais e o sobrolho se franziu acima da máscara. Nem o discurso habitualmente pouco espontâneo do reeleito Presidente da Câmara, que nos acostumou desde sempre aos mesmos chavões e às mesmas promessas me causou qualquer tipo de reação.

Dizia eu que foi mesmo no final que o líder da bancada da oposição pediu a palavra e se dirigiu ao palanque, com a lição bem preparada para o " ataque político" que iria protagonizar. Digo de ressalva que os membros da bancada opositora são quase na sua totalidade, pessoas por quem tenho genuína simpatia e admiração e isso inclui sem hesitações o Fernando Bonito Dias. Foi com esse tom simpático que começou, dando os parabéns a todos e desejando bom trabalho. Comecei a abrir os olhos quando o tema da intervenção passou para as quotas femininas nos cargos políticos ao nível concelhio e central e como tal assunto tinha sido tratado em particular nas recentes tomadas de posse das Juntas de Freguesias  locais. 

Confesso que nada sabia sobre o assunto e ainda hoje pouco mais sei, contudo, porque o próprio Fernando o referiu,  a questão nunca  esteve ferida de legalidade mas constituiu uma flagrante falta de respeito pelas mulheres das listas a sufrágio, e em particular, as mulheres eleitas para as Juntas de Freguesia pelo PSD.

Posso não ter muita experiência política, mas tenho inteligência suficiente para perceber que eu não estou do lado dos bons porque do outro lado estão os maus, e que as manobras políticas são algo sempre presente de todos os lados da barricada e para as quais vou ter que me habituar. No entanto, no que ao PS local diz respeito, estamos confortáveis no tema do feminismo na medida em que o Partido Socialista em Marvão foi o primeiro a eleger uma vereadora (a Dona Elvira, que todos referem ter sido uma acérrima defensora da vila), já teve uma candidata a Presidente de Câmara (Madalena Tavares) e nas autárquicas do mês passado, em seis eleições teve duas mulheres cabeça de lista que venceram a eleição a que se candidataram. Na Assembleia, somos cinco mulheres, todas com carreira profissional, três delas mães.

No PSD de Marvão, tal não acontece, nem agora nem no passado.

Mas voltemos ao que interessa, ao discurso do Fernando, que aliás foi a única voz da sua bancada do princípio ao fim, sobre as quotas e os direitos das mulheres. Apesar da retidão e segurança com que preparou o discurso e o tema, da referência pessoal à filha ou a nomeação das lesadas na questão particular que abordou, o discurso teve uma falha fatal que me motivou a tal indignação.

Parece-me primordial  que quem defende uma causa que versa sobre a discriminação a faça em causa própria. Ou seja, só pode entender em plenitude, na primeira pessoa, o que é a discriminação de género/racial/religiosa etc etc etc quem a viveu ou pelo menos a viveu em paridade. 

Todos podemos (e devemos) ser humanamente sensíveis para causas de discriminação, mas daí a conseguir calçar os sapatos do outro, sabermos o que é a sua dor e o seu percurso  vai uma longa distância. E nessa distância, está tudo.

Eu posso (e devo) advogar sobre os direitos do meu filho deficiente porque ele não tem voz própria. Mas no dia em que ele conseguir defender-se, eu tenho obrigação de lhe dar esse direito. Tenho obrigação de me calar.

Ora vejamos, então o discurso era no sentido de denunciar uma situação abusiva aos direitos das mulheres, no entanto, o que aconteceu, foi mais uma vez usar-se o tema dos direitos das mulheres como arma de arremesso político. O aproveitamento discriminatório não se mantém?

Eu posso e devo como líder de bancada, expor a imoralidade de uma jogada política  da fação oposta, prevenindo que tal se volte a repetir. Mas se o tema são os direitos das mulheres, então haja coragem e humildade para dar voz a uma mulher. Ter poder, é, saber no momento certo, abdicar dele. Ter coragem de ficar sentado como espectador e deixar uma mulher fazer esse discurso.  

Porque a conquista e o verdadeiro avanço está aí.   

segunda-feira, 29 de março de 2021

Ser presente

Quando estudei em Lisboa, vivi numa rua comprida e estreita com prédios relativamente altos de um lado e do outro.

Viviam ali, naquela rua, centenas de pessoas e eu, em quatro anos, nunca conheci nenhuma.

Lembro-me de nas noites quentes, ficar curiosa, na janela de marquise, a espreitar para os apartamentos e para a vida de cada um, e no entanto, nunca cheguei a dizer mais do que bom dia a ninguém.

Há uns anos atrás, quando a minha actual vizinha perdeu a mãe e ficou sozinha, confessou-me uma vez na loja que o barulho dos meus filhos e a luz da minha casa lhe fazia companhia. Todas as noites quando venho fechar o postigo da minha janela penso nela e se estará bem.  Com pequenas coisas somos presentes na vida uns dos outros. E é assim que deve ser

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Cerejas em Maio

Há vários anos que não chovia tanto em semana de Sra de Fátima, diz-me o Sr. Dionisio quando vem buscar o pão.
A meteoalentejo regista que este ano está já bem chovido em Marvão, a barragem está a largar água pelo ladrão e o verde está bem garrido por esses campos fora.
A água de Abril estragou a pouco cereja que temos na Serra de São Mamede, o Sr Reia já me tinha confirmado no fim de semana passado..
- A cereja tardia parecia bonita mas ou os pássaros a comem ou esta água a "arracha"
Mas Maio não é Maio sem cereja. Sem o doce e a cor, sem promessa de Verão.
Precisamos todos agarrar-nos à esperança de coisas boas, de reconciliação com a natureza em que o ciclo da vida não interrompe por quarentenas ou vírus.
Podia vir do Vale del Jerte, aqui tão perto. Um vale tão bonito e conhecido da província de Cáceres, promessa de cereja carnuda e gorda. Mas com a fronteira fechada, também não creio.
Quero ver se chega ao final da semana, mesmo se vier cara não faz mal, os fregueses pedem-na. A cereja não é só fruta, já disse, é a alegria do calor, é esperança.
A ver se as Beiras nos salvam...

segunda-feira, 2 de março de 2020

Sotaque

Atende-me quase todas as quartas de manhã, no Mercado Municipal, no espaço de venda da Queijaria Fortunato (Tolosa - Nisa)
Tem sempre uma bata impecavelmente branca a combinar com a cor dos cabelos, um sorriso simpático e muito saber fazer.
Depois de me aviar a encomenda, para eu pagar, passa-me a fatura pedindo-me o número de contribuinte.
A Dona Graça (nome tão da terra) não sabe o quanto eu gosto de a ouvir dizer o zero zero do número de contribuinte porque o faz com o sotaque de Nisa.
O zero passa a "zaero" de uma forma tão bonita, como já não se vai ouvindo.
Eu reparo sempre, e gosto muito.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

As filhoses das vizinhas

- Oh Catarina, há banha?
- Não, lamento, esgotou, só para a semana
A pergunta repetiu-se várias vezes durante dois dias seguidos até que eu, estranhando, perguntei.
: Mas afinal para que é tanta banha, por Deus? Esta semana tudo quer banha?
Descobri depois, a razão de tanto pedido
É que as filhoses do Natal levam banha.
É costume as vizinhas oferecerem as filhoses umas às outras, e nisto de receitas e ofertas ninguém quer ficar atrás.
Umas são melhores que as outras porque têm ingredientes especiais ou um toque diferente de estender a massa. A disputa é amigável e faz-se assim o Natal na comunidade, na tradição herdada de mães e avós e na alegria dos pequenos gestos.
E eu prometo que para a semana a encomenda será reforçada, ainda a tempo do Natal.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Menos de 100

Se há uma pergunta à qual respondo invariavelmente todos os dias, seja a clientes da loja ou aos hóspedes da Estalagem, é quantos habitantes tem a vila.
Numa terra em que morrem muitos mais do que aqueles que nascem, respondo sempre da mesma forma: somos 100 habitantes.
Apesar de ser um número baixo e ser relativamente fácil percorrer rua a rua, casa a casa até atingir o número exacto, a verdade é que um número redondo como 100 dá conforto, é redondinho.
O César era um desses 100 e não havia ninguém que não o conhecesse e considerasse. Perdeu a mobilidade após um acidente de viação muito grave há várias décadas atrás. Vivia em cadeira de rodas, aos cuidados da mãe, numa casa do Terreiro.
Apesar das dificuldades, e foram tantas ao longo dos anos, com problemas de saúde constantes e a dificuldade natural de viver numa terra que não foi feita para pessoas com pouca mobilidade, a verdade é que ao César sempre se viu um sorriso na cara, sempre teve uma palavra amiga para toda a gente, sempre foi um embaixador apaixonado da sua terra.
O César gostava de viver, era grato à vida, mantinha a esperança e valorizava as pequenas coisas. Que lição imensa.
Desde ontem somos menos de 100 porque perdemos mais um.
Aliás, somos muito menos de 100 porque perdemos um dos grandes.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Van Gogh


Era para ter sido um dia normal, de folga, com ida a Portalegre às compras. Não foi.
Quando descíamos de carro do Calvário para as Portas da Vila, vi rolar desamparado, na calçada, uma pequena bolinha de pêlo.
Como acontece, muitas vezes, naquela hora do dia, para cima vinham os funcionários da Câmara e outros serviços. Numa rua em que só nos cruzamos dificilmente, a opção era atropela-lo segunda vez ou ir apanhá-lo.
Foi apanhado, obviamente. Não miava mas sangrava bastante, assustado.
Deixei o pequeno merceeiro na Escola e segui para Portalegre, direita ao consultório dos meus amigos Marisa e Pedro Alegria.
O diagnóstico não tardou. Tinha a orelha muito maltratada e a cauda teria que ser amputada. Mas de órgãos internos e esqueleto estava bem,
Ficou para a operação. Ao final da tarde soubemos que tinha corrido tudo bem.
Hoje espera-nos para regressar a Marvão. Para nossa casa, claro, porque precisará de ajuda para recuperar. Já tem leite adaptado, whiskas para bebés e do amigo Daniel, uma caixa de transporte para não voltar aos tombos nas curvas da serra.
Pequenos merceeiros querem fazer a adopção plena depois do salvamento. Merceeiros com dúvidas. O nome ficou logo escolhido.
Van Gogh da orelha partida. Van Gogh corajoso da calçada de Marvão. Gato vadio sem cauda mas com muita sorte

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Dos melhores textos sobre o Alentejo que li nos últimos tempos

Houve tempos em que cantar ainda não era um património cultural, a comida ainda não se chamava gastronomia, as lonjuras ainda só cansavam as pernas e os sonhos, a calma não acalmava assim tanto e o vinho não se bebia em copos de pé alto nas casas de Turismo Rural. Cantava-se para purgar contrariedades, comia-se para se matar a fome, calcorreavam-se léguas de pó e lama, suavam-se sóis debaixo das boinas e o vinho fazia esquecer a manhã seguinte e bebia-se nas tabernas em copos pequenos como a vida. Os tempos mudaram e mudou a percepção que as pessoas têm de nós. Aprendemos que aquilo que anteriormente era visto como provinciano, popularucho, folclórico, é afinal o que nos define e nos distingue. Quem nos havia de dizer a nós que o cante, o vinho, o pão, o montado, o azeite, a lonjura e o vagar, seriam a trave mestra de uma identidade tão amada? Soubemos explicar o que temos e o que somos. Deixámos de ter vergonha e algum complexo de inferioridade, abrimos portas, janelas, baús, peitos, bocas, olhos, montes, horizontes, memórias, museus. Resgatámos a poesia popular, as violas campaniças, os grupos corais, o despique e o baldão, recuperámos palavras perdidas, salvámos receitas e histórias. Soubemos fazer a tradução da tradição. Mais do que um entretenimento ou um passatempo, a tradição é um abraço, uma partilha, uma questão existencial, uma causa colectiva.
Vítor Encarnação in Diário do Alentejo

terça-feira, 16 de abril de 2019

As flores de plástico

Conheço-o da rua a passear, ajudado pela bengala. É utente da SCMM e por vezes sobe a Rua das Portas da Vila para vir aqui à mercearia, normalmente para comprar uma garrafa de vinho tinto para oferecer a um familiar que o visita regularmente.
Entrou logo cedo e disse rapidamente:
- Tem cá flores de plástico?
Eu chateada digo:
- Bom dia
Diz novamente:
- Tem cá flores de plástico?
E eu insisto:
- Bom dia
E ele volta à carga:
- Não tem? Flores de plástico?
Desisto desarmada e faço cara feia
Ele aproxima-se do balcão e diz-me:
- Desculpe menina, mas eu ouço cada vez menos
(merceeira engole em seco, afinal não era má educação ou má vontade, é só surdez)
- Precisava de um ramos de flores de plástico, quero ir visitar a minha mulher ao cemitério e não tenho transporte para ir a Castelo de Vide tratar disso, os chineses sei que têm, mas resolvi entrar para lhe perguntar.
- Lamento imenso mas não, só tenho um ramo de flores secas...Ai, espere lá...tenho lá em cima um pequeno, vou buscar.
Trago um ramo bem bonito que comprei uma vez na Loja do Gato Preto e nunca cheguei a dar uso.
- Oh que pena, são tão bonitas, mas são pequenas. A campa da minha senhora é larga e tem uma jarra muito grande, iam cair lá para dentro, não dá. Obrigada por ter ido lá acima e tudo. Eu vou aqui ao taxi a ver se resolvo uma ida a Castelo de Vide. Obrigada na mesma.
- Ora essa. Tenha um bom dia
Ele sai devagar e não me responde novamente ao bom dia. Mas desta vez não faz mal, não me importo, não levo a mal. Não temos que levar a mal todas as falhas dos outros. Ficamos mais leves quando perdoamos as pequenas falhas, E se procurarmos bem, cá dentro de nós, há sempre razões maiores que nos ajudam a aceitar , e a entender.

domingo, 14 de abril de 2019

Marvão já não é para os que cá estão



Assisto nas notícias às reportagens sobre Lisboa e Porto em que falam da especulação imobiliária, que a classe média já não consegue viver no centro da capital e que o Alojamento Local mudou a face das grandes cidades. Ouço as notícias como algo de distante e que não nos diz respeito, como se de outro país se tratasse e as diferenças entre o litoral e o interior não deixassem cá chegar o "flagelo".
Mas não é bem assim.
Viver num centro histórico de uma vila do interior não é para todos. Faltam serviços, não existem casas modernas nem as comodidades contemporâneas. Não existem garagens ou elevadores, não há aquecimento central nem internet de alta velocidade. Mas quem escolhe viver aqui, pesa na balança a felicidade que trazem as vistas largas, a segurança,  tranquilidade e os bons dias dados aos vizinhos.
A autarquia faz a sua parte, promovendo o arrendamento dos imóveis municipais com rendas baixas, mas não controla bem as regras dos regulamentos que impõe, não simplifica nem promove  a reabilitação dos espaços,  nem dá valor a preocupações como o ordenamento do trânsito. Deixa andar...
Mas a sensação é que de facto, também aqui, Marvão já não é para os que cá estão. Somos cada vez menos. Perdem-se vizinhos e não nascem crianças...o turismo e o grande poder de compra absorvem as casas que estão à venda.
Colocar à venda uma casa por um preço especulado, afasta o português de classe média que se quer fixar. São as regras do mercado.
E depois vem o turista que quer conhecer a padaria tradicional, que pergunta se a escola ainda tem crianças ou que precisa comprar uma caixa de aspirinas e não há onde...já fechou...
É bom ter as fachadas limpas e pintadinhas de branco...claro que é, mas também importa promover a vida dentro dessas casas...
Transformam-se o sítios em museus despidos, desinteressantes, sem ninguém a circular nas ruas passadas as sete da tarde.
Uma boa experiência turística passa por sentir a vida das comunidades...ora se a comunidade já não existe, se os jovens que aqui nasceram tiveram que sair por não poderem cá comprar casa ou trabalhar, então é tudo falso, sem conteúdo, vazio.
Equilíbrio é a palavra chave. E se eu valorizo muito esse sentimento de pertença, se depende de mim resistir, fazer a minha parte no que toca a manter tradições, participar e prestar um serviço aos demais, ao mesmo tempo também gostaria de sentir que pertenço a uma comunidade onde há esperança e futuro. Hoje não é assim...veremos amanhã,  aliás...veremos o que nos reserva o amanhã.


terça-feira, 26 de março de 2019

Oportunidade de Emprego




EMPREGADA (O) de LIMPEZA – HOTELARIA

CONTRATO A TEMPO INTEIRO (8h/dia)

LOCAL: MARVÃO

Entrevista dia 4 de Abril pelas 14 horas na Estalagem/Mercearia de Marvão, Rua do Espírito Santo, nº 1 em Marvão
Trazer currículo resumido (2/3 pág)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Operários do Natal

Ela chegou com uma nota de cinco euros e escolheu três frascos de gel de banho para levar.
Timidamente, a medo, pediu-me para embrulhar.
Eu durante segundos pensei nas grandes superfícies com a sua banca de embrulho onde cada um faz e se serve, pensei no tempo e papel que se gasta e é de borla, para embrulhar em papel de prenda três frascos de gel de banho que custam 1,65 cada.
Mas depois regressei à minha mercearia e aos olhos dela, que diziam que poder gastar 5 euros em prendas para fazer feliz alguém é bom, é mais do que suficiente.
E fui buscar o papel e fiz-lhe os três embrulhos. Ela é pequena e é generosa e por isso eu também tenho que ser generosa,  no meu tempo e no meu papel de embrulho, juntas afinal, nesta tarefa natalícia de dar mais do que receber.



https://youtu.be/OOzHWw_ezDw

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Evasões 360º

Fomos à pressa à papelaria do shopping comprar o jornal porque estávamos atrasados para a sessão de cinema.
Já sentados e com um grande balde de pipocas, enquanto dava a publicidade, abri a revista Evasões 360 º (que vem como suplemento ao DN nos domingos) à procura da reportagem sobre Marvão.
Só tive tempo de ver as fotos e fiquei triste, na reportagem sobre Marvão não havia fotos da Mercearia mais bonita, apenas a nossa morada na nota lateral final.
- Ohhh bolas -  e confesso,  senti-me desiludida durante todo o filme.
Quando o cinema acabou, já no carro e de regresso a casa, tenho então tempo para abrir de novo a revista e ler  texto.
No final disse ao Nuno : Ahhhh, tinha ficado tão triste por não ver na reportagem a foto da Mercearia mas afinal fizeram muito melhor do que isso, fizeram um texto tão bonito

A visita tinha sido curta há duas semanas atrás. Um jornalista e um fotógrafo guiados pelo Filipe da Terrius fizeram ronda a alguns produtores/empreendedores/empresários cá da terra. Contei à pressa a minha história, mostrei a Mercearia e tinha sido isso. Falei de como gosto de escrever e partilhar pequenas histórias sobre a terra e a vida do dia a dia.
Quando as visitas são curtas uma pessoa fica sempre com medo de não conseguir passar bem a mensagem, até porque mercearias e merceeiras há muitas... mas vai-se a ver, o texto do João Ferreira Oliveira captou mesmo o que eu queria transmitir.

Apesar de eu gostar muito de escrever e contar histórias, tinha este blog abandonado há muito tempo. Porque online, as coisas mudam muito depressa e estão cada vez mais imediatas. Em vez de escrever textos longos passei-os a curtos no Facebook, e quando o Facebook me começou a enjoar passei para as fotos do Instagram. A necessidade de contar histórias é a mesma, os meios é que se vão alterando. No entanto, nada muda a força de um texto com princípio meio e fim, tal como acontece num livro ou numa revista, é ou não? Dá é mais trabalho :)

O jornalista da Evasões veio ler este blog parado no tempo, recuperou um texto de 2015 quando o António Melara reinaugurou o espaço do avó como museu, para introduzir a visita deles ao Lagar dos Galegos. Ficou mesmo bonito. Deixou-me tão feliz. É que no mundo do imediato é mesmo um privilégio saber que alguém perdeu tempo a ler um texto meu com três anos e a recupera-lo desta forma.

Fez-me sentir que fixar palavras, passeios, impressões, vale tanto a pena.
Fez-me sentir que nesta pequena mercearia alentejana, onde me sento ao computador, consigo chegar ao mundo.
Obrigada!