Há sempre qualquer coisa de curioso nestas crónicas que se irritam com o chamado “pop alentejano”, como se a música tivesse a obrigação moral de ser um relatório sociológico... ou, melhor ainda, um boletim de tragédias. Parece que cantar o Alentejo com beleza, poesia ou até algum romantismo é quase uma fraude estética, um gesto suspeito. Como se a arte estivesse proibida de embelezar a realidade.
quinta-feira, 5 de março de 2026
Mi Mi Mis
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Queijos do Monte Queimado (Montalvão) - edição 2026!
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
Conto de Natal – As velhas que não são nem para os gatos
Naquela terra pequena do interior, encravada entre montes e árvores antigas, os homens iam morrendo mais cedo do que as mulheres. Uns porque a vida lhes pesara nos pulmões, outros porque o vinho e o silêncio lhes tinham feito a cama, outros ainda porque simplesmente assim é nas terras onde o tempo corre devagar e a dureza do trabalho não perdoa. Ficavam elas. Sempre elas. As mulheres. Viúvas por hábito, por destino ou por antecipação.
A vila sabia distingui-las sem nunca o dizer em voz alta, como se fosse um saber antigo, passado de geração em geração, mais antigo do que o sino da Câmara Velha.
Havia as primeiras: as que sobreviviam não só aos maridos, mas também ao cansaço. Eram as mulheres da família e da comunidade. Faziam camisolas para os netos, sopas para quem estava doente, bolos para as festas e flores para a procissão. Sabiam o nome de toda a gente, lembravam-se dos aniversários, perguntavam “como está a perna?” ou “já passou essa tosse?”. Eram activas, bondosas e simpáticas, mesmo quando a vida lhes tinha levado quase tudo. Tinham aprendido que dar era uma forma de continuar a existir.
Depois vinham as segundas: as que não gostavam muito de pessoas, mas não faltavam à missa. Sentavam-se sempre no mesmo banco, conheciam os cânticos de cor e benziam-se com rigor quase militar. Não tinham grande paciência para conversas nem para visitas, mas exprimiam amor de outra maneira: cuidando dos animais. Alimentavam gatos vadios, falavam com cães como se fossem gente, deixavam restos de comida à porta, “para quem precisar”. O mundo humano cansara-as, mas ainda acreditavam numa bondade silenciosa, de quatro patas e olhos atentos.
E havia as terceiras. As que a vila chamava, com crueldade e verdade misturadas, as velhas que não são nem para os gatos.
Essas não gostavam de ninguém. Nem de pessoas, nem de animais, nem de nada que respirasse. Reclamavam do tempo, ou estava frio de mais ou calor de mais; dos preços, tudo caro, tudo um roubo; das dores, no joelho, nas costas, no estômago, na alma; e, sobretudo, do outro. Tratavam mal sem motivo aparente, como quem distribui fel porque já não sabe fazer outra coisa. Tinham incorporado a solidão de tal maneira que ela lhes crescera por dentro, endurecendo-lhes o olhar e a voz.
Eram uma espécie de Grinch à portuguesa, sem gorro verde nem riso maquiavélico, mas com um xaile gasto e uma lista interminável de queixas. Nunca estava nada bem. Se chovia, estragava-lhes os ossos; se fazia sol, dava-lhes dores de cabeça; se havia festa, era barulho; se havia silêncio, era abandono. Viviam numa prisão que ajudaram a construir, pedra a pedra, palavra amarga a palavra amarga.
Chegava o Natal e a vila mudava de cheiro. A lenha ardia, o açúcar queimava devagar nas rabanadas, o sino tocava com mais vontade. As primeiras mulheres enchiam as casas de gente. As segundas iam à missa do galo e deixavam um prato extra para o gato do vizinho. As terceiras… ficavam sozinhas.
Sozinhas, mesmo quando diziam que preferiam assim. Reclamavam que as bolachas já não eram como dantes, que o queijo lhes fazia mal ao estômago, que ninguém pensava nelas, mas não abriam a porta a ninguém. Ou melhor, diziam que não queriam abrir, quando no fundo era isso que mais temiam.
Naquela véspera de Natal, uma das primeiras mulheres, dessas que sabem ouvir o que não é dito, bateu à porta de uma dessas velhas que não eram nem para os gatos. Levava um prato simples, um pedaço de bolo, e sobretudo uma frase curta, sem moral nem sermão:
“Boa noite. Pensei em si.”
A velha resmungou. Disse que estava frio, que aquilo lhe fazia azia, que não tinha pedido nada. Mas a porta ficou entreaberta. E naquele espaço mínimo entrou o cheiro do bolo, o calor de outra presença, a ideia perigosa de que talvez ainda fosse possível não estar sozinha.
No Natal, naquela terra pequena do interior, continuaram a existir viúvas, categorias e solidões. Mas também ficou provado, pelo menos uma vez por ano, que mesmo as velhas que não são nem para os gatos são, afinal, gente. Gente cansada, azeda, difícil, mas gente. E que são elas, precisamente elas, que mais precisam de uma palavra de conforto e de uma porta aberta, nem que seja só por um instante, na noite em que o mundo inteiro parece lembrar-se de amar.
domingo, 29 de junho de 2025
"O Rei que Caiu da Torre" - O conto dos dias que passam
sábado, 15 de outubro de 2022
Activos territoriais
A minha filha mais velha entrou este ano para o ensino secundário. Para quem mora em zonas rurais, normalmente o 10º ano significa o sair da terrinha para ir para a cidade grande, onde se pode completar o liceu. Significa ainda que a turma já não é composta por alunos que residem todos no mesmo concelho para ser composta por alunos provenientes de vários concelhos do distrito.
Esta semana pesquisei sobre o que significa o termo "activos territoriais", na medida em que por vezes há expressões que servindo nos textos políticos ou de investigação, não fazem muito sentido na nossa cabeça. Afinal o que são estes activos? Têm a ver com a comunidade, com as potencialidades ou com a economia de um território?E fiz a ligação entre esta questão dos activos territoriais com uma conversa que tivemos num destes dias à hora do jantar.
Dizia-me a minha filha que tem na turma vários colegas de Arronches. E que estes colegas adoram a sua terra. Enaltecem todos os dias as vantagens da terra onde moram e é aí que se vêem no futuro. Ela não é assim, ou pelo menos não é ainda assim. Sonha com a vida nas grandes cidades e com as grandes oportunidades. Tudo certo, são escolhas.
Comentei com ela que amar a terra onde se nasceu e considerar essa marca inicial para os planos de vida é importante. Porque a nossa terra molda a nossa identidade, aquilo que valorizamos e a forma como mais tarde escolhemos ou não contribuir para a comunidade.
Voltando aos activos territoriais, após pesquisar percebo que ativos são fatores em uso, utilizados na produção de mercadorias ou serviços num determinado território. Já os recursos são fatores a revelar, a desenvolver ou a organizar como potenciais reais. As estratégias de especificação de ativos territoriais podem ser consideradas formas de valorização das vantagens sustentáveis dos territórios, na perspectiva de contribuir para a qualificação de seu processo de desenvolvimento.
Quando pensamos em desenvolvimento territorial visualizamos um processo de mudança continuada, na história , mas integrado em dinâmicas internas e externas, sustentado na potenciação dos recursos e ativos (materiais e imateriais, genéricos e específicos) existentes no local, com vistas à dinamização socioeconômica e à melhoria da qualidade de vida da sua população.
Ora, eu sempre vi Marvão como uma terra de grandes potencialidades, até aqui não lhes tinha dado o nome de activos territoriais, mas que o nome é bonito, de facto é. E são activos variados, na medida em que encontramos os naturais e os patrimoniais. Quando a identidade territorial é forte cabe às comunidades e aos seus governantes usa-las em seu favor, na medida em que:
1. a identidade territorial contribui para a melhorar a transferência intergeracional do saber
2.o sentido de pertença é aglutinador das relações económicas
3. É importante que os agentes económicos tenham uma postura crítica e inovadora, sempre pensando na mudança
4. Para tirar partido dos elementos diferenciadores de um território é indispensável haver planeamento e estratégia política
5. Os activos territoriais e identitários moldam um apego afectivo da comunidade aos valores paisagísticos e culturais.
Quando pensamos no sítio onde vivemos unicamente na perspetiva de aí trabalharmos para ganhar dinheiro, consumimos de forma predatória os recursos naturais, sociais ou culturais. Já quando existe um sentimento de pertença e de ligação, somos mais capazes de gerar um desenvolvimento positivo, solidário e com mais garante de sustentabilidade a longo prazo.
Nada do que envolva sentimentos pode ser forçado, mas neste caso em particular da minha mais velha, já que não se pode forçar então que se eduque e estimule.
No próximo mês, e aos 15 anos, ela vai ter oportunidade de o expressar em público pela primeira vez pois respondeu ao OPEN CALL JOVEM ( 20 anos do I Fórum Marvão)
Seja o que for que escolha dizer, já é um orgulho.
quarta-feira, 20 de outubro de 2021
A minha primeira Assembleia Municipal ou como o feminismo só faz sentido na primeira pessoa
Cheguei mesmo em cima da hora. Creio mesmo que fui vergonhosamente a ultima a entrar. A bonita sala da antiga fronteira de Marvão estava cheia e preparada para a tomada de posse da Câmara e da Assembleia Municipal 2021/2025.
Não serve, nunca poderá servir de desculpa, mas sou mãe de uma família numerosa, faço gestão de uma micro empresa já com várias valências e sou empregadora. Apesar das muitas horas que trabalho todos os dias da semana assumi no dia 18/10 um compromisso que só vou falhar se algum dia me faltar (ou aos meus dependentes), a saúde. Não entendo outra forma de estar no serviço cívico na medida em que a minha terra é um dos meus amores mais fortes, presentes e permanentes.
Tenho orgulho no lado da sala em que me sentei. Foi o partido mais votado e obteve maioria, mas principalmente porque sinto que todas aquelas pessoas a quem chamo colegas de bancada partilham do mesmo compromisso e o mesmo empenho. A outra bancada teve uma baixa mesmo antes da Assembleia ser marcada. O seu cabeça de lista abdicou. Desconheço as razões, tal como desconheço a razão para a abdicação de outro cabeça de lista do mesmo partido a uma das Juntas de Freguesia. Sintomático? Não sei, cedo para avaliar.
Tudo correu de forma serena: os juramentos, assinaturas, votações para as numerosas comissões a que membros da Assembleia pertencem. Fiquei na Comissão de Toponímia que é um tema que muito me agrada e para o qual me esforçarei para dar um contributo válido.
A minha bancada tinha o trabalho preparado e bem organizado e todos tivemos voz ao longo da sessão, propondo colegas para a constituição das comissões. Fiquei sensibilizada e agradada com este pormenor, ter tido voz desde o primeiro momento e por isso mesmo só posso desejar que assim se mantenha.
Foi mesmo no final que o o meu coração acelerou um pouco mais e o sobrolho se franziu acima da máscara. Nem o discurso habitualmente pouco espontâneo do reeleito Presidente da Câmara, que nos acostumou desde sempre aos mesmos chavões e às mesmas promessas me causou qualquer tipo de reação.
Dizia eu que foi mesmo no final que o líder da bancada da oposição pediu a palavra e se dirigiu ao palanque, com a lição bem preparada para o " ataque político" que iria protagonizar. Digo de ressalva que os membros da bancada opositora são quase na sua totalidade, pessoas por quem tenho genuína simpatia e admiração e isso inclui sem hesitações o Fernando Bonito Dias. Foi com esse tom simpático que começou, dando os parabéns a todos e desejando bom trabalho. Comecei a abrir os olhos quando o tema da intervenção passou para as quotas femininas nos cargos políticos ao nível concelhio e central e como tal assunto tinha sido tratado em particular nas recentes tomadas de posse das Juntas de Freguesias locais.
Confesso que nada sabia sobre o assunto e ainda hoje pouco mais sei, contudo, porque o próprio Fernando o referiu, a questão nunca esteve ferida de legalidade mas constituiu uma flagrante falta de respeito pelas mulheres das listas a sufrágio, e em particular, as mulheres eleitas para as Juntas de Freguesia pelo PSD.
Posso não ter muita experiência política, mas tenho inteligência suficiente para perceber que eu não estou do lado dos bons porque do outro lado estão os maus, e que as manobras políticas são algo sempre presente de todos os lados da barricada e para as quais vou ter que me habituar. No entanto, no que ao PS local diz respeito, estamos confortáveis no tema do feminismo na medida em que o Partido Socialista em Marvão foi o primeiro a eleger uma vereadora (a Dona Elvira, que todos referem ter sido uma acérrima defensora da vila), já teve uma candidata a Presidente de Câmara (Madalena Tavares) e nas autárquicas do mês passado, em seis eleições teve duas mulheres cabeça de lista que venceram a eleição a que se candidataram. Na Assembleia, somos cinco mulheres, todas com carreira profissional, três delas mães.
No PSD de Marvão, tal não acontece, nem agora nem no passado.
Mas voltemos ao que interessa, ao discurso do Fernando, que aliás foi a única voz da sua bancada do princípio ao fim, sobre as quotas e os direitos das mulheres. Apesar da retidão e segurança com que preparou o discurso e o tema, da referência pessoal à filha ou a nomeação das lesadas na questão particular que abordou, o discurso teve uma falha fatal que me motivou a tal indignação.
Parece-me primordial que quem defende uma causa que versa sobre a discriminação a faça em causa própria. Ou seja, só pode entender em plenitude, na primeira pessoa, o que é a discriminação de género/racial/religiosa etc etc etc quem a viveu ou pelo menos a viveu em paridade.
Todos podemos (e devemos) ser humanamente sensíveis para causas de discriminação, mas daí a conseguir calçar os sapatos do outro, sabermos o que é a sua dor e o seu percurso vai uma longa distância. E nessa distância, está tudo.
Eu posso (e devo) advogar sobre os direitos do meu filho deficiente porque ele não tem voz própria. Mas no dia em que ele conseguir defender-se, eu tenho obrigação de lhe dar esse direito. Tenho obrigação de me calar.
Ora vejamos, então o discurso era no sentido de denunciar uma situação abusiva aos direitos das mulheres, no entanto, o que aconteceu, foi mais uma vez usar-se o tema dos direitos das mulheres como arma de arremesso político. O aproveitamento discriminatório não se mantém?
Eu posso e devo como líder de bancada, expor a imoralidade de uma jogada política da fação oposta, prevenindo que tal se volte a repetir. Mas se o tema são os direitos das mulheres, então haja coragem e humildade para dar voz a uma mulher. Ter poder, é, saber no momento certo, abdicar dele. Ter coragem de ficar sentado como espectador e deixar uma mulher fazer esse discurso.
Porque a conquista e o verdadeiro avanço está aí.
segunda-feira, 29 de março de 2021
Ser presente
Quando estudei em Lisboa, vivi numa rua comprida e estreita com prédios relativamente altos de um lado e do outro.
Viviam ali, naquela rua, centenas de pessoas e eu, em quatro anos, nunca conheci nenhuma.
Lembro-me de nas noites quentes, ficar curiosa, na janela de marquise, a espreitar para os apartamentos e para a vida de cada um, e no entanto, nunca cheguei a dizer mais do que bom dia a ninguém.
Há uns anos atrás, quando a minha actual vizinha perdeu a mãe e ficou sozinha, confessou-me uma vez na loja que o barulho dos meus filhos e a luz da minha casa lhe fazia companhia. Todas as noites quando venho fechar o postigo da minha janela penso nela e se estará bem. Com pequenas coisas somos presentes na vida uns dos outros. E é assim que deve ser
segunda-feira, 11 de maio de 2020
Cerejas em Maio
segunda-feira, 2 de março de 2020
Sotaque
Tem sempre uma bata impecavelmente branca a combinar com a cor dos cabelos, um sorriso simpático e muito saber fazer.
Depois de me aviar a encomenda, para eu pagar, passa-me a fatura pedindo-me o número de contribuinte.
A Dona Graça (nome tão da terra) não sabe o quanto eu gosto de a ouvir dizer o zero zero do número de contribuinte porque o faz com o sotaque de Nisa.
O zero passa a "zaero" de uma forma tão bonita, como já não se vai ouvindo.
Eu reparo sempre, e gosto muito.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
As filhoses das vizinhas
- Não, lamento, esgotou, só para a semana
A pergunta repetiu-se várias vezes durante dois dias seguidos até que eu, estranhando, perguntei.
: Mas afinal para que é tanta banha, por Deus? Esta semana tudo quer banha?
Descobri depois, a razão de tanto pedido
É que as filhoses do Natal levam banha.
É costume as vizinhas oferecerem as filhoses umas às outras, e nisto de receitas e ofertas ninguém quer ficar atrás.
Umas são melhores que as outras porque têm ingredientes especiais ou um toque diferente de estender a massa. A disputa é amigável e faz-se assim o Natal na comunidade, na tradição herdada de mães e avós e na alegria dos pequenos gestos.
E eu prometo que para a semana a encomenda será reforçada, ainda a tempo do Natal.
sexta-feira, 21 de junho de 2019
Menos de 100
Numa terra em que morrem muitos mais do que aqueles que nascem, respondo sempre da mesma forma: somos 100 habitantes.
Apesar de ser um número baixo e ser relativamente fácil percorrer rua a rua, casa a casa até atingir o número exacto, a verdade é que um número redondo como 100 dá conforto, é redondinho.
O César era um desses 100 e não havia ninguém que não o conhecesse e considerasse. Perdeu a mobilidade após um acidente de viação muito grave há várias décadas atrás. Vivia em cadeira de rodas, aos cuidados da mãe, numa casa do Terreiro.
Apesar das dificuldades, e foram tantas ao longo dos anos, com problemas de saúde constantes e a dificuldade natural de viver numa terra que não foi feita para pessoas com pouca mobilidade, a verdade é que ao César sempre se viu um sorriso na cara, sempre teve uma palavra amiga para toda a gente, sempre foi um embaixador apaixonado da sua terra.
O César gostava de viver, era grato à vida, mantinha a esperança e valorizava as pequenas coisas. Que lição imensa.
Desde ontem somos menos de 100 porque perdemos mais um.
Aliás, somos muito menos de 100 porque perdemos um dos grandes.
domingo, 12 de maio de 2019
sexta-feira, 3 de maio de 2019
Van Gogh
Era para ter sido um dia normal, de folga, com ida a Portalegre às compras. Não foi.
Quando descíamos de carro do Calvário para as Portas da Vila, vi rolar desamparado, na calçada, uma pequena bolinha de pêlo.
Como acontece, muitas vezes, naquela hora do dia, para cima vinham os funcionários da Câmara e outros serviços. Numa rua em que só nos cruzamos dificilmente, a opção era atropela-lo segunda vez ou ir apanhá-lo.
Foi apanhado, obviamente. Não miava mas sangrava bastante, assustado.
Deixei o pequeno merceeiro na Escola e segui para Portalegre, direita ao consultório dos meus amigos Marisa e Pedro Alegria.
O diagnóstico não tardou. Tinha a orelha muito maltratada e a cauda teria que ser amputada. Mas de órgãos internos e esqueleto estava bem,
Ficou para a operação. Ao final da tarde soubemos que tinha corrido tudo bem.
Hoje espera-nos para regressar a Marvão. Para nossa casa, claro, porque precisará de ajuda para recuperar. Já tem leite adaptado, whiskas para bebés e do amigo Daniel, uma caixa de transporte para não voltar aos tombos nas curvas da serra.
Pequenos merceeiros querem fazer a adopção plena depois do salvamento. Merceeiros com dúvidas. O nome ficou logo escolhido.
Van Gogh da orelha partida. Van Gogh corajoso da calçada de Marvão. Gato vadio sem cauda mas com muita sorte
segunda-feira, 29 de abril de 2019
Dos melhores textos sobre o Alentejo que li nos últimos tempos
terça-feira, 16 de abril de 2019
As flores de plástico
domingo, 14 de abril de 2019
Marvão já não é para os que cá estão
Assisto nas notícias às reportagens sobre Lisboa e Porto em que falam da especulação imobiliária, que a classe média já não consegue viver no centro da capital e que o Alojamento Local mudou a face das grandes cidades. Ouço as notícias como algo de distante e que não nos diz respeito, como se de outro país se tratasse e as diferenças entre o litoral e o interior não deixassem cá chegar o "flagelo".
Mas não é bem assim.
Viver num centro histórico de uma vila do interior não é para todos. Faltam serviços, não existem casas modernas nem as comodidades contemporâneas. Não existem garagens ou elevadores, não há aquecimento central nem internet de alta velocidade. Mas quem escolhe viver aqui, pesa na balança a felicidade que trazem as vistas largas, a segurança, tranquilidade e os bons dias dados aos vizinhos.
A autarquia faz a sua parte, promovendo o arrendamento dos imóveis municipais com rendas baixas, mas não controla bem as regras dos regulamentos que impõe, não simplifica nem promove a reabilitação dos espaços, nem dá valor a preocupações como o ordenamento do trânsito. Deixa andar...
Mas a sensação é que de facto, também aqui, Marvão já não é para os que cá estão. Somos cada vez menos. Perdem-se vizinhos e não nascem crianças...o turismo e o grande poder de compra absorvem as casas que estão à venda.
Colocar à venda uma casa por um preço especulado, afasta o português de classe média que se quer fixar. São as regras do mercado.
E depois vem o turista que quer conhecer a padaria tradicional, que pergunta se a escola ainda tem crianças ou que precisa comprar uma caixa de aspirinas e não há onde...já fechou...
É bom ter as fachadas limpas e pintadinhas de branco...claro que é, mas também importa promover a vida dentro dessas casas...
Transformam-se o sítios em museus despidos, desinteressantes, sem ninguém a circular nas ruas passadas as sete da tarde.
Uma boa experiência turística passa por sentir a vida das comunidades...ora se a comunidade já não existe, se os jovens que aqui nasceram tiveram que sair por não poderem cá comprar casa ou trabalhar, então é tudo falso, sem conteúdo, vazio.
Equilíbrio é a palavra chave. E se eu valorizo muito esse sentimento de pertença, se depende de mim resistir, fazer a minha parte no que toca a manter tradições, participar e prestar um serviço aos demais, ao mesmo tempo também gostaria de sentir que pertenço a uma comunidade onde há esperança e futuro. Hoje não é assim...veremos amanhã, aliás...veremos o que nos reserva o amanhã.
terça-feira, 26 de março de 2019
Oportunidade de Emprego
domingo, 24 de fevereiro de 2019
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
Operários do Natal
Timidamente, a medo, pediu-me para embrulhar.
Eu durante segundos pensei nas grandes superfícies com a sua banca de embrulho onde cada um faz e se serve, pensei no tempo e papel que se gasta e é de borla, para embrulhar em papel de prenda três frascos de gel de banho que custam 1,65 cada.
Mas depois regressei à minha mercearia e aos olhos dela, que diziam que poder gastar 5 euros em prendas para fazer feliz alguém é bom, é mais do que suficiente.
E fui buscar o papel e fiz-lhe os três embrulhos. Ela é pequena e é generosa e por isso eu também tenho que ser generosa, no meu tempo e no meu papel de embrulho, juntas afinal, nesta tarefa natalícia de dar mais do que receber.
https://youtu.be/OOzHWw_ezDw
segunda-feira, 10 de dezembro de 2018
Evasões 360º
Já sentados e com um grande balde de pipocas, enquanto dava a publicidade, abri a revista Evasões 360 º (que vem como suplemento ao DN nos domingos) à procura da reportagem sobre Marvão.
Só tive tempo de ver as fotos e fiquei triste, na reportagem sobre Marvão não havia fotos da Mercearia mais bonita, apenas a nossa morada na nota lateral final.
- Ohhh bolas - e confesso, senti-me desiludida durante todo o filme.
Quando o cinema acabou, já no carro e de regresso a casa, tenho então tempo para abrir de novo a revista e ler texto.
No final disse ao Nuno : Ahhhh, tinha ficado tão triste por não ver na reportagem a foto da Mercearia mas afinal fizeram muito melhor do que isso, fizeram um texto tão bonito
A visita tinha sido curta há duas semanas atrás. Um jornalista e um fotógrafo guiados pelo Filipe da Terrius fizeram ronda a alguns produtores/empreendedores/empresários cá da terra. Contei à pressa a minha história, mostrei a Mercearia e tinha sido isso. Falei de como gosto de escrever e partilhar pequenas histórias sobre a terra e a vida do dia a dia.
Quando as visitas são curtas uma pessoa fica sempre com medo de não conseguir passar bem a mensagem, até porque mercearias e merceeiras há muitas... mas vai-se a ver, o texto do João Ferreira Oliveira captou mesmo o que eu queria transmitir.
Apesar de eu gostar muito de escrever e contar histórias, tinha este blog abandonado há muito tempo. Porque online, as coisas mudam muito depressa e estão cada vez mais imediatas. Em vez de escrever textos longos passei-os a curtos no Facebook, e quando o Facebook me começou a enjoar passei para as fotos do Instagram. A necessidade de contar histórias é a mesma, os meios é que se vão alterando. No entanto, nada muda a força de um texto com princípio meio e fim, tal como acontece num livro ou numa revista, é ou não? Dá é mais trabalho :)
O jornalista da Evasões veio ler este blog parado no tempo, recuperou um texto de 2015 quando o António Melara reinaugurou o espaço do avó como museu, para introduzir a visita deles ao Lagar dos Galegos. Ficou mesmo bonito. Deixou-me tão feliz. É que no mundo do imediato é mesmo um privilégio saber que alguém perdeu tempo a ler um texto meu com três anos e a recupera-lo desta forma.
Fez-me sentir que fixar palavras, passeios, impressões, vale tanto a pena.
Fez-me sentir que nesta pequena mercearia alentejana, onde me sento ao computador, consigo chegar ao mundo.
Obrigada!







