quinta-feira, 5 de março de 2026

Mi Mi Mis

 Há sempre qualquer coisa de curioso nestas crónicas que se irritam com o chamado “pop alentejano”, como se a música tivesse a obrigação moral de ser um relatório sociológico... ou, melhor ainda, um boletim de tragédias. Parece que cantar o Alentejo com beleza, poesia ou até algum romantismo é quase uma fraude estética, um gesto suspeito. Como se a arte estivesse proibida de embelezar a realidade.

Fico a pensar no que o cronista preferiria ouvir nas manhãs da Rádio Comercial: Talvez um refrão sobre estatísticas de suicídio, uma balada sobre despovoamento, um dueto sobre a pobreza estrutural? Algo suficientemente cru para que ninguém corra o risco de gostar demasiado da paisagem.
É evidente que o Alentejo tem problemas... e sérios. Mas também é verdade que esse retrato de abandono não é monopólio da planície. Poderíamos falar da Beira Baixa, de muitas terras das Beiras, ou de Trás-os-Montes. Há um país inteiro que raramente aparece nos radares televisivos e que só emerge, de vez em quando, nas notícias: nas tempestades que deixam aldeias às escuras, nas pontes que caem e isolam localidades, nos fogos que percorrem milhares de hectares como se o território fosse descartável.
Talvez por isso a arte exista: para que a realidade não seja apenas inventário de desgraças. Para que uma terra possa ser cantada, mesmo quando a vida ali não é fácil.
Porque amar uma terra na sua plenitude, já se sabe, é monopólio de quem cá está, de quem fica, de quem resiste. O resto será sempre conversa.
Não temos culpa que não entendas este sentimento de pertença, Henrique Raposo!
Por mim, gostava que fosse precisamente o pop alentejano a ganhar o Festival da Canção este fim de semana. Este ano diz-se que o festival está profundamente politizado. Talvez esteja, pelo menos à superfície. Mas a música, essa, continua inevitavelmente política. Nem que seja pelo simples acto de insistir em cantar um lugar.

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