quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

 Conto de Natal – As velhas que não são nem para os gatos

Naquela terra pequena do interior, encravada entre montes e árvores antigas, os homens iam morrendo mais cedo do que as mulheres. Uns porque a vida lhes pesara nos pulmões, outros porque o vinho e o silêncio lhes tinham feito a cama, outros ainda porque simplesmente assim é nas terras onde o tempo corre devagar e a dureza do trabalho não perdoa. Ficavam elas. Sempre elas. As mulheres. Viúvas por hábito, por destino ou por antecipação.

A vila sabia distingui-las sem nunca o dizer em voz alta, como se fosse um saber antigo, passado de geração em geração, mais antigo do que o sino da Câmara Velha.

Havia as primeiras: as que sobreviviam não só aos maridos, mas também ao cansaço. Eram as mulheres da família e da comunidade. Faziam camisolas para os netos, sopas para quem estava doente, bolos para as festas e flores para a procissão. Sabiam o nome de toda a gente, lembravam-se dos aniversários, perguntavam “como está a perna?” ou “já passou essa tosse?”. Eram activas, bondosas e simpáticas, mesmo quando a vida lhes tinha levado quase tudo. Tinham aprendido que dar era uma forma de continuar a existir.

Depois vinham as segundas: as que não gostavam muito de pessoas, mas não faltavam à missa. Sentavam-se sempre no mesmo banco, conheciam os cânticos de cor e benziam-se com rigor quase militar. Não tinham grande paciência para conversas nem para visitas, mas exprimiam amor de outra maneira: cuidando dos animais. Alimentavam gatos vadios, falavam com cães como se fossem gente, deixavam restos de comida à porta, “para quem precisar”. O mundo humano cansara-as, mas ainda acreditavam numa bondade silenciosa, de quatro patas e olhos atentos.

E havia as terceiras. As que a vila chamava, com crueldade e verdade misturadas, as velhas que não são nem para os gatos.

Essas não gostavam de ninguém. Nem de pessoas, nem de animais, nem de nada que respirasse. Reclamavam do tempo, ou estava frio de mais ou calor de mais; dos preços, tudo caro, tudo um roubo; das dores, no joelho, nas costas, no estômago, na alma; e, sobretudo, do outro. Tratavam mal sem motivo aparente, como quem distribui fel porque já não sabe fazer outra coisa. Tinham incorporado a solidão de tal maneira que ela lhes crescera por dentro, endurecendo-lhes o olhar e a voz.

Eram uma espécie de Grinch à portuguesa, sem gorro verde nem riso maquiavélico, mas com um xaile gasto e uma lista interminável de queixas. Nunca estava nada bem. Se chovia, estragava-lhes os ossos; se fazia sol, dava-lhes dores de cabeça; se havia festa, era barulho; se havia silêncio, era abandono. Viviam numa prisão que ajudaram a construir, pedra a pedra, palavra amarga a palavra amarga.

Chegava o Natal e a vila mudava de cheiro. A lenha ardia, o açúcar queimava devagar nas rabanadas, o sino tocava com mais vontade. As primeiras mulheres enchiam as casas de gente. As segundas iam à missa do galo e deixavam um prato extra para o gato do vizinho. As terceiras… ficavam sozinhas.

Sozinhas, mesmo quando diziam que preferiam assim. Reclamavam que as bolachas já não eram como dantes, que o queijo lhes fazia mal ao estômago, que ninguém pensava nelas, mas não abriam a porta a ninguém. Ou melhor, diziam que não queriam abrir, quando no fundo era isso que mais temiam.

Naquela véspera de Natal, uma das primeiras mulheres, dessas que sabem ouvir o que não é dito, bateu à porta de uma dessas velhas que não eram nem para os gatos. Levava um prato simples, um pedaço de bolo, e sobretudo uma frase curta, sem moral nem sermão:

“Boa noite. Pensei em si.”

A velha resmungou. Disse que estava frio, que aquilo lhe fazia azia, que não tinha pedido nada. Mas a porta ficou entreaberta. E naquele espaço mínimo entrou o cheiro do bolo, o calor de outra presença, a ideia perigosa de que talvez ainda fosse possível não estar sozinha.

No Natal, naquela terra pequena do interior, continuaram a existir viúvas, categorias e solidões. Mas também ficou provado, pelo menos uma vez por ano, que mesmo as velhas que não são nem para os gatos são, afinal, gente. Gente cansada, azeda, difícil, mas gente. E que são elas, precisamente elas, que mais precisam de uma palavra de conforto e de uma porta aberta, nem que seja só por um instante, na noite em que o mundo inteiro parece lembrar-se de amar.

domingo, 29 de junho de 2025

"O Rei que Caiu da Torre" - O conto dos dias que passam


Era uma vez, num reino distante, onde havia um monte com um castelo altaneiro , um rei chamado Dom Teimoso I. Vivia no alto da sua torre de granito, rodeado por uma corte que lhe fazia vénias tão profundas que às vezes ficavam com torcicolos por três dias seguidos.
A corte era formada por nobres de fina estampa e língua mais fina ainda, especializados em beijar anéis, levantar taças e virar casacas — por esta ordem. Enquanto o rei brilhava, eles brilhavam junto, como espelhos sujos numa sala mal iluminada. Chamavam-no de "Sol de Justiça", "Estrela do Alvor", "Guardião do Reinado e dos Restos do Banquete".
Mas eis que veio a crise.
Foi um vendaval de desgraças: maus conselhos, más decisões, más companhias, más ideias — um verdadeiro festival de "más". O castelo já não reluzia, a torre tinha infiltrações, e os jornais davam notícia desta desgraça e corrupção. A coroa pesava, e os sorrisos da corte ficaram mais apertados que os fatos de gala.
A corte, sensível como termómetro em febre alheia, começou a afastar-se discretamente. Primeiro pararam de fazer vénias, depois começaram a tossir sempre que o rei passava, e por fim, convidaram-no educadamente a abdicar. Um deles — o Conde de Muda-Rumo — chegou a dizer:
"Majestade, talvez Vossa Alteza devesse fazer uma pausa real. Ir, sei lá... pastorear, meditar, fazer azeite para o lagar. Por nós, claro. Pelo reino. Pela posteridade!"
O rei, fragilizado, caiu. Mas não literalmente (havia corrimões). Caiu no conceito, na praça pública e, sobretudo, caiu na conta de que a sua corte não passava de um grupo de bailarinos que só dançava ao som da fanfarra da vitória.
No passado, esta corte já tinha cortejado outros reis, outros candidatos, outras siglas. Fizeram juras de lealdade a quem estivesse de pé, enquanto chutavam discretamente quem estivesse de joelhos. Diziam mal do antigo rei em jantares, em cafés e até na fila do confessionário.
Mas o mundo, como a roda da carroça do velho ferreiro, gira.
E um dia, por astúcia, acaso ou tédio da desgraça, Dom Teimoso I voltou a erguer-se. Retomou o trono, agora um pouco mais desconfiado, um pouco mais ranzinza e — o mais importante — com binóculos na mão. Binóculos, sim, para ver de longe quem vinha bajular e lembrar-se quem partiu na primeira borrasca.
A corte, claro, voltou a correr. Chamaram-lhe de novo "Sol", "Luz", "Fénix", e garantiram que tinham sempre acreditado nele (embora os arquivos do reino dissessem o contrário). Culpavam agora a oposição, a imprensa, a astrologia e até a má colheita de nabos pelo afastamento do rei.
Esqueceram-se de que o povo, embora simples, não tem memória curta. Viram bem quem andou a acenar a outras bandeiras, quem renegou jantares antigos, e quem trocou fidelidade por conveniência.
Mas mais do que o povo, quem não esqueceu foi o próprio rei.
Dom Teimoso I, de novo em cima da torre, agora não convidava para banquetes os bajuladores de ocasião. Recebia poucos, ouvia menos, sorria quase nunca. E quando o Conde de Muda-Rumo lhe ofereceu um brinde, ele respondeu:
“Obrigado, Conde, mas prefiro água. A vossa taça cheira a esquecimento.”
E assim viveu, governando com cautela, binóculos e um diário secreto onde escrevia, todas as noites, os nomes daqueles que o traíram — com tinta permanente.