segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A balança da pequena merceeira e os clientes judeus


Quando entraram eu estranhei. Andava atarefada, para trás e para diante, ainda a arrumar a loja, depois do fim de semana agitado da Feira.
Fiquei surpreendida porque vestiam os dois roupa escura, chapéu característico, corte de cabelo característico, e barba. Falavam uma língua indecifrável misturada com um simpático inglês e ainda italiano.
Eram judeus e eu não os devia estranhar, porque esta é uma região de tradição judaica, como atestam as tradições e a sinagoga da vila de Castelo de Vide, as cabeceiras de túmulo do Museu de Marvão ou as ombreiras das portas de Alpalhão.
Mas estranhei porque não é habitual, assim tão visivelmente a rigor, confesso.
Compraram um Guia de Marvão. Depois, ainda, um saco de avelãs. Ao darem a volta à loja, foram encontrar a balança de brincar que eu tenho guardada numa prateleira, para quando a pequena merceeeira me vem "ajudar", nas tardes do fim de semana.
- Is it for sale?
- No, I'm sorry, it's my daughters toy, When she comes to help me here in the store.
- How old is your daugther?
- I have a girl with 8, a boy with 4 and another boy with 2.
Sorriu e disse:
- You must be happy
E foram-se embora, depois do cumprimento de despedida
E a verdade é que sou. Por isso, e por tanto mais.

sábado, 5 de setembro de 2015

Um Castelo concessionado e uma Câmara Municipal que envergonha

No primeiro semestre de 2013 a Câmara Municipal de Marvão concessionou o seu maior monumento, o seu ex-libris, o Castelo.
Sobre esse processo e a minha opinião sobre o assunto escrevi assim.
Dois anos volvidos, fruto de um trabalho associativo voluntário, a direcção do Centro Cultural de Marvão, concessionária do espaço, vê o seu trabalho reconhecido pelo Município da forma mais baixa, vergonhosa e inqualificável. O que foi escrito na declaração de voto pelo executivo no poder sobre este assunto custa a comentar.
Quanto um executivo camarário trata assim o trabalho associativo e voluntário que é realizado em prol de todos, no monumento que mais nos identifica, nada mais há a dizer.
A política, o poder, os valores que o poder corrompe.
Momentos assim, fazem-me sinceramente perder a esperança nas pessoas e no futuro...



segunda-feira, 3 de agosto de 2015

FIMMarvão 2015


Acabou e já tenho saudades. O 2º Festival Internacional de Música de Marvão decorreu ao longo de duas semanas. Mais de 40 espectáculos, exposições, palestras. Muitos visitantes, muito público, sempre.
Um sucesso. Daqueles bem grandes, a provar a todos, que mesmo se tratando de uma terra do interior português, quando as iniciativas têm qualidade, o público aparece.
Cultura, elevação e magia num cenário de sonho. O sonho do nosso maestro.
Agradecer será sempre pouco. A TODOS que estiveram envolvidos, expressos no cansaço notório do Humberto e do Pedro . A TODOS os que estiveram envolvidos, expressos no sorriso sempre constante do Maestro Poppen e da fantástica Julianne.
De notar que à semelhança do ano passado, o Maestro fez questão de convidar toda a população da vila para assistir gratuitamente ao concerto de despedida. Como aqui todos nos conhecemos, fiquei feliz ao verificar que imensa gente aderiu e esteve presente.
Podia colocar aqui uma foto do concerto de ontem, o concerto da despedida, com mais uma vez casa cheia e ainda um sem número de gente espalhada pelas muralhas do 2º pátio do Castelo.
Mozart a dizer: Adeus, até para o ano!
Mas não, escolho a foto que a Núria, fantástica voluntária me mandou para o meu mural.
A minha filha, o meu sobrinho e o pôr do sol visto da muralha, para os lados de Castelo de Vide.
A minha filha marvanense que durante duas semanas ouviu Mozart, Mendelssohn, Strauss, Haydn, Schubert, Kodaly, Mahler, Beethoven, Viana da Mota.
Que a música clássica perdure dentro de todos nós, privilegiados por participar deste evento. Até à terceira edição, até ao próximo verão.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Bem visto

- Ai agora o papel higiénico é perfumado?
- Sim, esse é, mas há também do normal, quer que troque?
- Ai menina, não vale a pena, isso serve tudo para o mesmo...

(quando há vontade, todos nos entendemos :))

"Holla. I have a question: La posta, quando es abierta?"
(eu sorri, esta turista para fazer uma pergunta falou em três línguas. Eu respondi em português)
- Abre às duas

domingo, 26 de julho de 2015

A música regressou à Ammaia no segundo dia do Festival



Foi opção minha logo quando os bilhetes foram postos à venda e não me arrependi nada.
Troquei a gala inaugural do Festival de Música pelo primeiro dos concertos da Ammaia (Estágio Gulbenkian com a maestrina Joana Carneiro)
A presença do Aníbal, da Maria e da sua selecta gorilada (isto entre seguranças propriamente ditos e demais pápa croquetes) anunciados apenas um par de dias antes, só veio confirmar o que já tinha inicialmente previsto. As galas inaugurais são mais show off do que música propriamente dita. E sim, fiquei contente com o prestigio que a presença do Presidente da República significou para o evento, pena é tudo o resto que o acompanha.
Hoje, nem a má educação e a boçalidade dos chefinhos locais, que em vez de servirem de anfitriões chegaram atrasados,quando a música já soava, me entristeceu. Gente poucachinha não sabe que não se pode chegar tarde a concertos desta categoria, muito menos incomodar com movimentações quem já está sentado. Adiante…
Para além disso, eu conheço bem Marvão, sei que as noites no castelo, mesmo no Verão, são agrestes. Chega a uma hora em que os deuses sopram ventos frios que levam tudo pela frente.
Já na Aramenha, o verão é morno de dia e de noite, e eu lembro-me bem, de há uns anos atrás, que quando há música na Ammaia, as cigarras cantam em festa, as estrelas brilham serenas no céu, e Marvão fica lá ao longe, no alto, como um barco a bolinar.
Ammaia dos Romanos com música clássica. Casa cheia, bonita de gente e uma imensidão de jovens e talentosos músicos em palco. E ela, a maestrina (só o nome é bonito), franzina mas tão imensa, tão segura de si.
Ouviu-se Kodaly e Mahler. Eu só sei que os olhos se me encheram de lágrimas logo quando tudo começou e depois mais ao fim, quando a harpa acalmou tudo o resto, apaziguando a alma.
Na fila atrás da minha, o Maestro, a mulher e a filha também assistiam. Agora lembro-me da primeira vez que escrevi sobre ele, e como mais de dois anos depois, tudo cresceu de forma tão bonita, e hoje a música e a cultura enchem novamente Marvão
Ainda só estamos no segundo dia do Festival, e eu já me sinto tão feliz.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Lagar Museu Melara Picado Nunes - Galegos, Marvão



Foi este o lagar que visitei na passada quarta feira com os meus filhos. 
Já o conhecia. Num dia frio de Janeiro, há vários anos, fui lá fazer um trabalho com o avô do António, actual proprietário. O lagar estava a funcionar mas ao Sr. António já lhe faltavam as forças
- Vamos a ver se o meu neto quer depois pegar nisto
O neto António já perdeu o avô e a avó espanhola, que tinha uma loja de atoalhados/mercearia/venda de café mesmo em frente ao lagar. Duas pessoas importantes nesta comunidade de fronteira cujo legado, o António assumiu.
Nos dias que correm, mais importante de que montar um serviço, é também mostrar que se sabe fazer, que se produz algo. O Azeite Castelo de Marvão é o azeite que o António herdou e agora partilha com todos.
Uma excelente forma para quem nos visita, de conhecer uma das artes mais antigas do Alentejo, a dos lagareiros, e um dos nossos produtos mais nobres, o nosso ouro.
Um museu onde se trabalha, uma marca moderna
Vale a pena a visita, palavra de merceeira smile emoticon
http://mpn.pt/